
por Marcelo Emerson
Publicado em 29/06/2023, às 09h10
Os puristas sempre estão errados. Admito que decidi começar a coluna desta semana com uma frase direta para apontar que, em termos de crítica musical, todos que insistem em defender a pureza de um estilo acabarão num beco sem saída. Digo isso por uma simples razão: a música revela uma linguagem universal que se enriquece a partir das combinações estilísticas.
Pior ainda é aquele fã que arroga para si o papel de “Guardião da Pureza” de um estilo, patrulhando artistas e público que ousam se aventurar pela mistura de sonoridades.
Curiosamente, tais figuras estão presentes em três estilos que têm cada vez mais restrições no que tange à ampliação do seu público: na música clássica, no jazz e no heavy metal.
Curiosamente, o rock n’ roll, estilo musical que está no DNA do heavy metal se originou a partir de uma mistura de blues tocado pelos negros do Mississipi com a balada dos imigrantes irlandeses, acrescido de muita distorção nas guitarras (influência da sonoridade psicodélica) e vocais operísticos. O heavy metal já nasce miscigenado. Um purista no heavy metal é alguém que ignora as próprias origens do estilo que diz admirar.
E o próprio heavy metal seguiu agregando diversas influências, criando sub-gêneros muito ricos em musicalidade. Um dos mais interessantes é o metal sinfônico, que acentua ainda mais os elementos de música erudita na sua receita musical.
Há vários expoentes do estilo. Para situar o leitor, cito as seguintes bandas como referência: Nightwish, Within Temptation, Kamelot, Epica e Xandria. Esta lançou recentemente um ótimo álbum (“The Wonders Still Awaiting”), o primeiro com a vocalista franco-grega Ambre Vourvahis.
Este colunista bateu um papo com a simpática vocalista, que nos contou como chegou ao posto de frontwoman da banda alemã: “Eu comecei a cantar há muito tempo, quando eu ainda era uma garota na escola. Sempre amei isso. Eu fazia parte de todos os corais, fazendo shows quando eu cresci. Em algum ponto eu comecei a amar heavy metal quando eu tinha por volta de 11 anos de idade com [as bandas] Nightwish e Within Temptation. [...] Enquanto eu ainda estava estudando eu sequer imaginava que eria uma cantora numa banda famosa. Mas naquela época eu estava conhecendo o Marco (Heubaum, guitarrista e líder da banda Xandria) e a banda tinha dado uma parada. Então, por diversão, começamos um projeto paralelo, fazendo música que nós dois gostamos, livremente. Apenas para criar alguma arte. Ele percebeu que as músicas podiam funcionar muito bem para a Xandria, quando ele começou de novo a trabalhar no futuro da banda. Eu gravei demos para isso. Ele gostou de verdade da minha voz. Então ele me pediu para ser a nova vocalista da Xandria.
A entrevista completa, com participação de Thiago Rahal Mauro, está no canal Metal Musikast no youtube e o álbum citado foi lançado em versão nacional pelo selo shinigami Records. Vale conferir a mistura de heavy metal melódico, música erudita e sonoridades góticas tendo à frente a excelente voz da Ambre Vourvahis. Os puristas sempre estão errados.
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