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COLUNA

A Esquerda Woke e o Paradoxo do Apoio às Teocracias Ditatoriais

A Esquerda Woke e o Paradoxo do Apoio às Teocracias Ditatoriais - Imagem: Reprodução / Freepik
A Esquerda Woke e o Paradoxo do Apoio às Teocracias Ditatoriais - Imagem: Reprodução / Freepik

Marcelo Emerson Publicado em 20/06/2025, às 11h12


Nos últimos anos, a ascensão do movimento conhecido como “woke” tem influenciado profundamente o debate público no Ocidente. Derivado da ideia de "estar acordado" para injustiças sociais, o termo foi apropriado por segmentos do campo progressista para simbolizar um compromisso inegociável com causas identitárias — como o feminismo, os direitos LGBTQIA+, o antirracismo, entre outras lutas legítimas e necessárias.

No entanto, é justamente no seio desse compromisso com os direitos humanos que surgem algumas das mais gritantes contradições dos militantes woke. Se, por um lado, condenam com razão qualquer sinal de opressão de gênero ou sexualidade nas democracias liberais ocidentais, por outro, manifestam uma complacência perturbadora — e até mesmo apoio — a regimes teocráticos autoritários no Oriente Médio e na Ásia, cujas práticas violam sistematicamente os mesmos direitos que esses militantes dizem defender.

Tomemos como exemplo o Irã, um país onde mulheres são obrigadas por lei a cobrir seus cabelos, onde a simples luta por direitos civis pode levar à prisão e até à morte. Apesar disso, não são raras as manifestações públicas de solidariedade de setores da esquerda progressista ao governo iraniano, muitas vezes sob o pretexto de resistência ao “imperialismo ocidental”. Ao fazer isso, deixam de ouvir — ou pior, silenciam — as próprias vozes femininas iranianas que lutam corajosamente por autonomia e dignidade.

O mesmo ocorre com o tratamento dispensado à comunidade LGBTQIA+ em regimes como o iraniano, onde relações homoafetivas são consideradas crime e punidas com penas severas, incluindo a pena de morte. Ainda assim, alguns setores do campo woke preferem concentrar sua fúria em políticos e figuras públicas do Ocidente que, embora alvo de críticas legítimas, operam dentro de democracias onde o debate e a liberdade de expressão ainda são possíveis. A crítica feroz ao Ocidente é, muitas vezes, acompanhada de um silêncio constrangedor — ou de relativizações — quando se trata de ditaduras que oprimem impiedosamente as mesmas minorias que aqui são objeto de defesa apaixonada.

Esse paradoxo revela não apenas uma incoerência retórica, mas um problema moral. Quando a ideologia se sobrepõe aos princípios universais dos direitos humanos, abre-se espaço para uma seletividade ética que fragiliza o próprio discurso progressista. A causa deixa de ser os direitos humanos em si, e passa a ser a oposição automática a tudo o que é percebido como “ocidental” ou “capitalista”. O resultado disso é o abandono daqueles que mais precisam de solidariedade internacional: mulheres oprimidas por normas religiosas, homossexuais perseguidos por leis bárbaras, minorias religiosas vítimas de limpeza étnica.

É claro que o Ocidente está longe da perfeição. Racismo, misoginia, homofobia e desigualdade persistem e devem ser combatidos com firmeza. No entanto, é possível — e necessário — reconhecer essas falhas sem cair na armadilha de justificar ou ignorar crimes cometidos por regimes que operam sob o pretexto de tradições culturais ou resistência geopolítica.

O verdadeiro compromisso com os direitos humanos deve ser universal, não seletivo. Não se pode pregar liberdade para alguns e fechar os olhos para a opressão de outros, dependendo do alinhamento político dos opressores.

Se os valores progressistas querem manter sua relevância e legitimidade, precisarão reencontrar o caminho da coerência. Defender os vulneráveis deve ser um ato de princípios, e não uma escolha estratégica ditada por simpatias ideológicas.

A esquerda que verdadeiramente deseja justiça social precisa ter coragem de enfrentar todas as formas de opressão — ainda que isso signifique criticar governos ou movimentos considerados “anti-imperialistas”, embora sejam teocracias ditatoriais. Caso contrário, corre o risco de trair os próprios ideais em nome de alianças perigosas. E, nesse processo, de transformar a sua causa em caricatura.


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