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COLUNA

O pragmatismo de Lula garante a sobrevivência?

A fala de Lula sobre o Ibama revela uma estratégia política em busca de apoio em meio a desafios governamentais. - Imagem: Divulgação / Ricardo Stuckert
A fala de Lula sobre o Ibama revela uma estratégia política em busca de apoio em meio a desafios governamentais. - Imagem: Divulgação / Ricardo Stuckert
Kleber Carrilho

por Kleber Carrilho

Publicado em 15/02/2025, às 08h50


A fala de Lula criticando o Ibama pels suposta demora (ou simplesmente negativa) na autorização para exploração de petróleo na Foz do Amazonas não foi um deslize ou um momento de irritação. Foi um ato calculado, um recado claro. O presidente, que já demonstrou diversas vezes ter o pragmatismo como principal característica, está sinalizando que, se sua base tradicional não está conseguindo garantir a governabilidade, e isso inclui quem se preocupa com questões climáticas, ele vai confirmar as alianças e os temas que satisfaçam setores políticos mais conservadores.

Essa movimentação, para quem já teve Lula na Presidência por tantos anos, não deveria surpreender. Lula foi eleito com o apoio de uma frente ampla, que reuniu desde históricos quadros da esquerda até setores da centro-direita. Mas essa coalizão, que funcionou no limite para derrotar Bolsonaro, só tem mostrado fragilidade quando o assunto é manter a agenda política sob controle. A eleição de Hugo Motta e Davi Alcolumbre para a Câmara e o Senado reforçou a presença do Centrão, o que trouxe ainda mais desafios para Lula. E, nesse cenário, ele sabe que precisa agir.

A crítica ao Ibama não foi apenas um gesto ao setor energético e aos estados do Norte e Nordeste, que enxergam na exploração da Margem Equatorial uma possibilidade de desenvolvimento econômico. Foi também um sinal aos aliados que têm influência no Congresso, deixando claro que o governo está disposto a atender agendas que vão além do que a gente pode chamar de progressismo ambiental.

E, além desse recado interno, existe um outro fator que não pode ser ignorado: o contexto internacional. Lula sabe que Donald Trump não tem nenhuma preocupação com questões ambientais e esse posicionamento também pode ser lido como um aceno ao grupo que orbita o presidente americano. Trump, como tem confirmado até na defesa dos canudinhos de plástico, prioriza o crescimento econômico baseado em petróleo e energia fóssil. Para um governo brasileiro que busca evitar confrontos e manter boas relações comerciais, pode ser um movimento calculado para tentar evitar tensões no futuro.

Repito que esse episódio reforça uma característica que sempre acompanhou Lula: sua capacidade de adaptação às circunstâncias políticas. Se a esquerda, Marina Silva e os ambientalistas esperavam que ele mantivesse um discurso alinhado às causas climáticas, agora enfrentam a realidade de um presidente que prioriza a sobrevivência política acima de qualquer coisa.

Não há dúvidas: Lula vai seguir moldando o governo conforme as pressões que recebe (e percebe). E como as forças progressistas não estão sendo capazes de garantir a estabilidade que ele precisa, ele está buscando o apoio de setores conservadores, como sempre fez quando necessário. A questão que repito aqui é: até onde essa guinada pode ir?


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