
por Kleber Carrilho
Publicado em 06/01/2024, às 11h58
Acho que todos temos a mesma sensação de que atualmente, no Brasil, não saímos mais do ambiente eleitoral. Há alguns anos, as eleições passavam, os ânimos esfriavam e a vida voltava ao normal. E até dava uma saudade das eleições.
Agora não. Desde que as redes sociais se tornaram o lugar das discussões, dos cancelamentos e das fake news eternas, nunca mais o ambiente de tranquilidade pós-eleitoral voltou. E isso, em vez de trazer mais gente para o debate realmente político, trouxe uma instabilidade democrática, que vimos resultar em episódios como o de 8 de janeiro do ano passado.
Mas, apesar de todo esse ambiente de disputa e de acusações, este ano realmente vai ter eleições, e das mais importantes, que definem como a gestão do dia a dia vai acontecer. Isso porque, ao contrário do que tentam fazer parecer ao jogar toda a discussão para a polarização nacional, as pessoas vivem nas cidades, andam pelas ruas, têm amigos nos bairros. Portanto, nada mais importante do que cuidar da vida e da gestão do lugar em que ela acontece.
É claro que, principalmente nas capitais, vai haver uma tentativa de antecipação das disputas de 2026 e mesmo de 2030, com testes de limites e de capacidade de transferência de votos.
Em São Paulo, com tantos desafios de gestão, a disputa promete ser sobre diversos aspectos ideológicos, sem foco no que realmente importa, que é o futuro da cidade. Cada pré-candidato tem sido apresentado como personagem de um líder nacional, angariando apoios e montando estratégias para antecipar os processos de sucessão ao atual governo federal.
Guilherme Boulos, ao ser o candidato oficial de Lula, mostra mais uma vez que o presidente prefere tirar o protagonismo do PT, mesmo que o partido venha a indicar alguém para formar a chapa como vice. Se esse nome for Marta Suplicy (de volta a convite do presidente), vai ficar ainda mais claro que não vai sobrar nada para o grupo que comanda a agremiação.
Tábata Amaral é a indicada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, que tenta mostrar que é possível criar uma oposição dentro do próprio governo, com uma aproximação com a classe média paulistana, que odeia o PT, mas também não tem muito apreço pelo bolsonarismo, reeditando um tucanato que reinou no Estado durante tanto tempo, mesmo que agora sem o PSDB, que foi substituído pelo PSB.
Os Ricardos, Nunes e Salles, brigam pelo apoio de Bolsonaro, enquanto o primeiro, que herdou a cadeira de Bruno Covas, já tem Baleia Rossi e Gilberto Kassab como apoiadores. Embora não tenham a presença midiática de outras lideranças nacionais, os dois são caciques com capacidade de articulação quase infinita.
Sobra nessa história Kim Kataguiri, que não tem padrinho nacional, e provavelmente não vai muito além do barulho do MBL, que diminuiu muito nos últimos tempos.
Portanto, a competição tem agora esses personagens. Alguns outros podem aparecer, e também podem acontecer alianças antes mesmo que a campanha formal comece. É hora de olhar para tudo isso e tentar encaixar em cada um desses grupos um pensamento de planejar a cidade para as próximas décadas.
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