Diário de São Paulo
Siga-nos
TARIFAÇO

“Não vamos sair da mesa”, diz Haddad em meio a ameaça tarifária

O ministro da Fazenda alerta sobre a possibilidade de tarifas elevadas sobre produtos brasileiros a partir de agosto e apresenta planos de contingência

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Imagem: Reprodução / Agência Brasil / Marcelo Camargo
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Imagem: Reprodução / Agência Brasil / Marcelo Camargo

William Oliveira Publicado em 21/07/2025, às 12h32


O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou nesta quarta-feira (21) que o Brasil continuará engajado nas negociações com os Estados Unidos, apesar do aumento das tensões comerciais. Ele reiterou que não há intenção por parte do governo brasileiro de abandonar o diálogo.

Haddad alertou para a possibilidade de que uma elevação significativa nas tarifas sobre produtos brasileiros entre em vigor a partir de 1º de agosto. Ainda assim, afirmou que o governo está elaborando estratégias para mitigar os impactos sobre os setores mais vulneráveis da economia, caso a proposta do presidente americano Donald Trump — que prevê uma tarifa de 50% sobre exportações brasileiras — se concretize.

“O Brasil não vai sair da mesa de negociação. A determinação do presidente Lula é de que nós não demos nenhuma razão para sofrer esse tipo de sanção e a orientação dele é a seguinte: o vice-presidente [Geraldo] Alckmin, o Ministério da Fazenda e o Itamaraty estão engajados permanentemente [na negociação]. Mandamos uma segunda carta [ao governo dos Estados Unidos] na semana passada, em acréscimo à de maio, da qual nós não obtivemos resposta até agora, mas nós vamos insistir na negociação comercial para que possamos encontrar um caminho de aproximação dos dois países que não têm razão nenhuma para estarem distanciados”, afirmou.

O ministro também anunciou a criação de um grupo de trabalho dedicado a apoiar os setores que possam ser mais afetados pelo possível aumento das tarifas.

No entanto, destacou que as propostas ainda não foram apresentadas ao presidente Lula. “A pedido do presidente, estamos delineando diferentes cenários, desde a reabertura das negociações até uma eventual ausência de resposta às cartas. É possível que cheguemos ao dia 1º sem retorno, e precisamos estar preparados para isso”, disse. “Temos planos de contingência prontos para qualquer decisão presidencial”, completou.

Apesar de afirmar que o governo não pretende retaliar empresas americanas com medidas similares, Haddad admitiu que analisa a aplicação da lei da reciprocidade. “Temos um grupo de trabalho se preparando para apresentar [propostas] essa semana para o presidente. Quais são as alternativas que temos? Tanto em relação à lei da reciprocidade quanto em relação a um eventual apoio que o presidente eventualmente queira considerar em relação aos setores mais prejudicados. Mas isso não foi apresentado ainda ao presidente Lula”, explicou.

O ministro acrescentou que o plano de contingência não deve resultar necessariamente em novos gastos públicos, citando casos anteriores em que o governo usou mecanismos financeiros alternativos para apoiar regiões afetadas por desastres, como as enchentes no Rio Grande do Sul.

Haddad também comentou o contexto internacional, observando que outros países enfrentam dificuldades semelhantes com as tarifas impostas pelos Estados Unidos. Ele ressaltou, porém, uma particularidade brasileira: a conexão política entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e Donald Trump.

“Nesse momento é hora de unidade no país na defesa do interesse nacional e da percepção, que é real, de que nós não estamos sozinhos nessa questão com os Estados Unidos. Mas nós temos uma particularidade que é o fato de que tem uma força política de extrema direita no Brasil que está concorrendo contra os interesses nacionais”, declarou.

O ministro argumentou ainda que o Brasil possui déficit comercial com os EUA e, portanto, não pode ser visto como responsável pelo desequilíbrio na relação bilateral. Lembrou que se reuniu com autoridades americanas diversas vezes este ano e que havia sinais de revisão da tarifa.

Haddad também comentou a investigação anunciada por Trump sobre o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix. Comparou a ferramenta à transição dos telefones fixos para os celulares, defendendo sua eficácia e baixo custo como inovação financeira.

“Eu estive com o com o secretário do Tesouro na Califórnia dois meses atrás, discutindo uma tarifa de 10% como sendo injusta e ele estava aberto ao diálogo. O que que mudou de dois meses para cá para que uma autoridade dos Estados Unidos estivesse aberta a discutir uma redução de tarifa de 10% e, no meio do caminho, você acorda com a notícia de que de 10% passou a 50%?”, questionou.

Por fim, o ministro reafirmou que o governo não pretende revisar a meta fiscal e garantiu o compromisso de entregar o melhor resultado das contas públicas dos últimos 12 anos até o fim do mandato de Lula. “Nós vamos entregar o melhor resultado fiscal em quatro anos, tranquilamente, recuperando as finanças. Nós vamos entregar o melhor nível de emprego. Nós vamos entregar a melhor distribuição de renda. Nós vamos entregar o melhor crescimento médio de 2015 para cá. Anota o que estou falando”, concluiu.


últimas notícias