Alta da gasolina, diesel e itens básicos responde pela maior parte do IPCA e reflete impacto do cenário internacional sobre os preços no Brasil

Erika Osti Publicado em 10/04/2026, às 15h05
A inflação no Brasil voltou a surpreender em março e ficou acima do esperado pelo mercado, pressionada principalmente pelo aumento dos combustíveis e dos alimentos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira (10), avançou 0,88% no mês, superando as projeções de economistas, que giravam em torno de 0,70%. O resultado reforça o peso do cenário externo sobre a economia brasileira e acende o alerta para os próximos meses.
Os grupos de Transportes e Alimentação e bebidas foram os principais responsáveis pela alta e, juntos, responderam por 76% de toda a inflação registrada no período. Esse desempenho concentra a pressão em itens essenciais do dia a dia, o que amplia a percepção de encarecimento para a população.
No caso dos combustíveis, o impacto foi direto e significativo. A gasolina subiu 4,59% e teve o maior peso individual no índice, contribuindo com 0,23 ponto percentual do IPCA. Já o diesel registrou uma disparada ainda maior, de 13,90%, embora com impacto menor no cálculo final. O aumento está ligado à instabilidade no mercado internacional de petróleo, agravada pelo conflito no Oriente Médio, que afetou a oferta global após o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques a instalações energéticas.
Esse movimento não se limita aos postos de combustíveis. O encarecimento do diesel, por exemplo, eleva o custo do transporte de mercadorias e acaba sendo repassado ao consumidor final, principalmente nos alimentos. Esse efeito em cadeia ajuda a explicar por que a inflação segue pressionada mesmo em um período que tradicionalmente teria desaceleração.
No grupo Alimentação e bebidas, os preços subiram 1,56% em março. A alimentação no domicílio teve alta ainda mais intensa, de 1,94%, a maior desde abril de 2022. Produtos básicos registraram aumentos expressivos, como o leite longa vida, que subiu 11,74%, e o tomate, com alta de 20,31%. A elevação reflete tanto a redução da oferta de alguns itens quanto o aumento dos custos logísticos.
Apesar da surpresa no índice cheio, economistas destacam que alguns indicadores qualitativos da inflação mostraram melhora. Os chamados núcleos inflacionários, que excluem itens mais voláteis, desaceleraram no período, e a inflação de serviços também perdeu força. Ainda assim, o índice de difusão, que mede o espalhamento das altas de preços, subiu para 67%, indicando que o aumento atingiu uma parcela maior de produtos e serviços.
No acumulado do ano, o IPCA já soma alta de 1,92%, enquanto em 12 meses o índice chegou a 4,14%, mais próximo do teto da meta de inflação, fixado em 4,5%. Embora ainda dentro da margem de tolerância, o resultado aumenta a cautela do Banco Central, que deve manter uma postura mais conservadora em relação aos juros diante das incertezas externas.
O cenário reforça a avaliação de que a inflação segue sensível a fatores globais, especialmente ao comportamento das commodities e às tensões geopolíticas. Para os próximos meses, a expectativa do mercado é de que os efeitos indiretos da alta dos combustíveis continuem pressionando os preços, principalmente por meio do custo do transporte e da cadeia de abastecimento.
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