Locais sem banheiro, cara feia quando se pede água, falta de local apropriado para aguardar o pedido e carregar o celular. Essas são algumas das reclamações

Redação Publicado em 14/04/2022, às 00h00 - Atualizado às 08h26
Locais sem banheiro, cara feia quando se pede água, falta de local apropriado para aguardar o pedido e carregar o celular. Essas são algumas das reclamações de entregadores que trabalham com delivery em restaurantes e em dark kitchens na capital paulista.
As dark kitchens são galpões que reúnem dezenas de cozinhas de restaurantes que só atendem no sistema de entrega. De porte industrial, o modelo de negócio foi iniciado com a pandemia de Covid-19, e virou o pesadelo de moradores de alguns bairros residenciais da capital paulista por causa do barulho, da gordura e do odor, como mostrou o g1.
Os administradores desses espaços afirmam, no entanto, que oferecem estrutura de apoio para entregadores, composta, no mínimo, por tomadas para carregamento de telefones, bebedouro e banheiro.
Os empreendimentos geralmente funcionam em galpões administrados por empresas que reúnem várias cozinhas, dividindo o aluguel pelo espaço. Há diversos deles instalados em bairros como Jardins, Brooklin, Vila Romana, Mooca e Santo Amaro, entre outros.
Por causa da alta demanda de delivery, esse locais passaram a concentrar uma grande quantidade de motoboys nas imediações. Os vizinhos a esses empreendimentos relatam que a presença deles causa mais sujeira e barulho nas ruas e falta de segurança, já que, segundo os moradores, os motoboys sobem com a moto nas calçadas e costumam bloquear a passagem.

A dark kitchen Hub Pinheiros, na Zona Oeste da capital — Foto: Bárbara Muniz Vieira/g1
A reportagem do g1 visitou quatro dark kitchens nos bairros Brooklin, Lapa, Jardins e Pinheiros e falou com dezenas de entregadores que trabalham nesses locais. O ponto positivo apontado por eles é a facilidade de concentrar vários restaurantes em um espaço. Mas as vantagens terminam por aí.
No HUB Pinheiros, o g1 flagrou os entregadores sentados e comendo no chão. De acordo com eles, o local possuía bancos, que foram retirados justamente para evitar a presença dos entregadores no local. O espaço também não fornece água nem banheiro, segundo o motoboy Elias da Silva Junior, de 22 anos.
“Tiraram o banco e colocaram esse ferro pra gente não ficar nesse espaço. Estamos aqui de teimosos. A gente fica esperando o pedido ficar pronto e carregando o telefone, não podemos sair daqui, mas queriam que a gente ficasse na rua. Os restaurantes daqui têm micro-ondas, mas não deixam a gente usar para esquentar a marmita, tem de comer frio. É a maior sacanagem com a gente. Água e banheiro a gente tem de pedir no estacionamento em frente ou no posto.”

Motoboys sentam no chão para comer após bancos terem sido retirados do Hub Pinheiros — Foto: Bárbara Muniz Vieira/g1
Em nota, a SmartKitchens, empresa responsável pela operação do espaço, afirmou que em todos os Hubs há um espaço de apoio para motoboys composto por bancos, tomadas para carregamento de telefones, bebedouro e banheiro exclusivo para entregadores, higienizado duas vezes por dia.
No HUB Pinheiros I, de acordo com a empresa, foram retirados os bancos de apoio e transformados em área em estacionamento para os entregadores “para eliminar o problema de consumo de drogas que estava acontecendo no local, pelos entregadores,” e para aumentar a área de estacionamento das motos dentro do espaço, minimizando o impacto do fluxo de motos na vizinhança.
A SmartKitchens afirma também que o HUB Pinheiros I continua disponibilizando bebedouro, tomadas e banheiro exclusivo para entregadores, “gratuitamente e à vontade” (veja a nota completa abaixo).

Leonardo de Jesus trabalha como motoboy no HUB Pinheiros — Foto: Bárbara Muniz Vieira/g1
As reclamações dos entregadores não é só sobre a estrutura da dark kitchen, mas também sobre as empresas que fazem a intermediação do serviço. O motoboy Bruno Fernandes chegou ao HUB revoltado depois de um cliente ter cancelado o pedido.
“Fui daqui até o mercado, 10 km, e cancelaram o pedido, maior ódio. Quem vai pagar a gasolina sou eu. O cliente cancela, e você fica com a dívida. Nem morador de rua passa por essa humilhação. De vez em quando, o Rappi fala que vai ter gorjeta de R$ 13, mas eles pagam R$ 8 para a gente e pegam R$ 5 para eles. Além disso, a taxa normal paga aos entregadores é R$ 5, aí eles fazem promoção para os clientes e tiram dinheiro da gente, pagam R$ 3,50 por entrega”, reclama.
“E quando você está no mercado, fazendo as compras do cliente, e não tem o produto que ele escolheu? Te tratam mal! Os clientes tratam mal porque o supermercado não tem o produto. Você está de brincadeira? Eu na rua desde 6h trabalhando e você acha que estou brincando com a moto?”, indaga, revoltado.

Motoboy mostra dívida de R$ 119 que ficou com ele após cliente cancelar pedido que foi entregue — Foto: Bárbara Muniz Vieira/g1
Leonardo de Jesus, de 23 anos, concorda com o colega. Ele conta que tem dois filhos e trabalha como entregador há cinco anos, mas os ganhos não estão cobrindo as contas.
“A Rappi trata a gente que nem cachorro, bloqueia a gente e não fala o porquê. Semana passada eu fiquei três horas no mercado escolhendo produto do cliente, entreguei direitinho. No outro dia, eu estava bloqueado no aplicativo. Acordei cedo e falei para o meu filho que estava indo trabalhar, cheguei aqui e estava bloqueado sem nenhuma explicação.”
“Hoje saí de casa para trabalhar às 7h e até agora [14h, aproximadamente] só fiz R$ 42. Estou bloqueado em três aplicativos e não sei o motivo. A gente pede oportunidade para os clientes mesmo, vocês não precisam de motolink lá na Globo?”, pergunta.
Em nota, o Rappi informou que a retenção do valor do pedido para os entregadores, a partir do cancelamento de usuários, ocorre de forma temporária, até que seja concluída a devolução da mercadoria, sendo automaticamente retirada. Esta retenção ocorre apenas para pedidos cancelados em mercados, não incidindo sobre restaurantes.
Sobre os bloqueios, o Rappi informa que eles somente ocorrem quando o entregador independente infringe os Termos e Condições da plataforma e que é facultado ao entregador o direito de contestar o bloqueio, através do canal de suporte, o qual poderá ser reanalisado, em conformidade com a Lei 14.297/2022.
A plataforma afirma ainda que as promoções não são subsidiadas pelos entregadores independentes, mas que elas resultam de parcerias com as marcas presentes na plataforma ou de outras iniciativas do Rappi, e nunca estão relacionadas às tarifas pagas aos entregadores.
Por fim, o Rappi informa que não procede a informação de que retém parte das gorjetas, que são integralmente repassadas aos entregadores independentes
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