
Fabio Modena Publicado em 16/03/2024, às 08h58
Desde a Grécia antiga já existia o consenso de que viver é um ato político. Nossas escolhas são políticas, até nossas relações sociais também são. Onde há relacionamento, afeição, indiferença ou troca, há política. Ou seja, ela está presente no nosso cotidiano, e vai muito além das urnas eleitorais.
Se somos seres políticos, as instituições criadas por nós, consequentemente, também são.
Uma das instituições mais conhecidas no mundo contemporâneo é a “Academia de Artes e Ciências Cinematográficas”, a “Academia”, que foi fundada em 1927. É desnecessário recordar que ela é a mais proeminente no que se refere a filmes, sendo responsável pela mais importante premiação da categoria, o Oscar, que acontece todos os anos em Hollywood.
Na cerimônia mais recente, que ocorreu neste último domingo, ficou claro e evidente o posicionamento da Academia como instituição política. Alguns momentos extremamente politizados marcaram o evento: as alfinetadas do apresentador Jimmy Kimmel ao ex-presidente Donald Trump, as falas do mesmo apresentador em prol dos movimentos sindicalistas de Hollywood e a homenagem feita ao opositor de Vladimir Putin, Alexei Navalny, são alguns exemplos.
A política também estava presente entre os vencedores, como no discurso do diretor vencedor por “Zona de Interesse”, Jonathan Glazer, que fez menção à Guerra na Faixa de Gaza, e disse: “Todas as nossas escolhas foram feitas para refletir e nos confrontar no presente. Nosso filme mostra onde a desumanização leva ao seu pior momento”.
Os próprios filmes e principais vencedores da noite, Oppenheimer e Pobres Criaturas, também trazem tons extremamente políticos, o primeiro ao tratar da vida do criador da bomba atômica, que mostra a caça americana aos comunistas na década de 50, o Macartismo, e o segundo com críticas sociais em relação, principalmente, ao papel da mulher na sociedade.
O fato é que a política sempre fez parte da cerimônia. Há mais de 80 anos, a primeira mulher negra a ganhar uma estatueta, a do cobiçado prêmio de melhor atriz coadjuvante, Hattie McDaniel, teve que sentar-se numa mesa separada das pessoas brancas, era mais uma vítima do vergonhoso regime de segregação racial, o qual vivia os EUA na época.
Voltamos ao ponto inicial deste artigo, de que a política transcende todas as áreas, e as instituições são políticas. A reflexão é: a Academia não teria que ficar isenta disso?
O fato de uma das transmissões de maior audiência de todo o globo tender exclusivamente para um lado é preocupante. A conduta do Oscar traz à tona a manipulação em massa de ideias. A história está aí para ser sempre revista e debatida, e a indústria cinematográfica de Hollywood deveria ter cautela, e usar todo seu peso e sua força na busca do bom senso, trazendo todos os lados para o debate, com críticas construtivas e não excludentes.
Afinal, até mesmo a bomba atômica criada sob a liderança de Oppenheimer, precisou cair nas mãos também dos comunistas para que houvesse um equilíbrio de poder entre duas formas distintas de ver o mundo.
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