Durante depoimento, coronel afirma que mensagens enviadas eram preocupações casuais sobre a situação política do Brasil
Gabriela Thier Publicado em 28/07/2025, às 15h41
O coronel Bernardo Romão Correa Neto, implicado em uma suposta conspiração para manter o ex-presidente Jair Bolsonaro no poder, prestou depoimento na manhã desta segunda-feira (28) ao Supremo Tribunal Federal (STF). Durante seu interrogatório, ele afirmou que a reunião em questão, que teria sido marcada por planejamentos de ações contra adversários do golpe, era na verdade um encontro informal entre amigos do meio militar.
Romão Correa Neto negou veementemente qualquer participação em planos de ruptura institucional ou golpe de Estado, além de desmentir a existência de qualquer esquema para sequestrar ou executar autoridades contrárias ao grupo golpista. "Na verdade, tratou-se de um encontro de amigos das Forças Especiais. Não houve organização. Esses encontros ocorrem espontaneamente quando diversas pessoas estão reunidas numa guarnição", esclareceu o coronel.
O militar ainda ressaltou que, na data em que se alega que a reunião ocorreu, 28 de novembro de 2022, ele estava em Brasília a trabalho e que o encontro com outros membros das Forças Especiais aconteceu por acaso, já que colegas estavam na capital federal no mesmo período.
Correa Neto descreveu o evento como uma confraternização simples: "Foi realizado em um salão cercado por paredes de vidro. Serviram pizza e refrigerante, e as conversas eram casuais, com porteiros passando... É impossível que um planejamento das Forças Especiais aconteça dessa maneira", opinou.
Durante o depoimento, o coronel também foi questionado sobre uma carta que enviou a um colega militar, na qual fazia críticas ao então comandante do Exército, general Freire Gomes, por não se unir aos planos do suposto complô. Ele defendeu sua ação dizendo que apenas atendeu a um pedido de um colega e enviou um documento encontrado em um grupo de mensagens do qual era membro, mas não participava ativamente.
Romão Correa Neto refutou a ideia de que o conteúdo da carta tivesse sido elaborado durante a reunião dos integrantes das Forças Especiais do Exército, conhecidos informalmente como "kids pretos".
No decorrer do interrogatório, o coronel foi confrontado com mensagens que enviou ao tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. As mensagens continham linguagem cifrada e expressavam sua preocupação com a hesitação do ex-presidente e dos líderes das Forças Armadas em agir diante da situação política do país.
O coronel descreveu-se como um "militar alegre" que aprecia interações sociais e comentou que as conversas informais não devem ser interpretadas seriamente, afirmando que eram meras "preocupações sobre a situação do país". Em relação a uma das mensagens onde sugeriu a necessidade de "influenciar" o alto comando das Forças Armadas, Correa Neto argumentou que a Polícia Federal omitiu a expressão "positivamente" no relatório final da investigação.
Segundo suas palavras, "influenciar positivamente" significaria persuadir os comandantes a esclarecerem seus subordinados sobre a real situação política após uma declaração oficial do Exército que havia legitimado as manifestações em frente aos quartéis. Ele explicou: "As pessoas acharam que as Forças Armadas fariam algo, mas isso não era verdade".
O coronel pediu desculpas ao Exército e aos seus superiores pelo que classificou como um "vazamento" de mensagens privadas. Ele enfatizou: "Ficou a impressão de que eu estava sendo ingrato. Nunca fui ingrato; admiro muito minha instituição e me desculpo com meus superiores. Nunca serei favorável a uma ruptura ou golpe de Estado".