COLUNA

Taiwan e o xadrez geopolítico

A venda de armamentos dos EUA para Taiwan gera tensões e sanções da China, sinalizando uma nova fase nas relações globais - Imagem: Reprodução/Freepik

Marcos Vinícius de Freitas Publicado em 31/12/2025, às 10h55

Era para ser um fim-de-ano mais tranquilo. No entanto, o governo Trump, uma vez mais, cria desafios à ordem global. Quanto mais o tempo passa e Washington enfraquece sua relevância global, maiores são os movimentos equivocados dos Estados Unidos para forçarem a imposição hegemônica num mundo em que já não detêm o domínio global.

A recente reação da República Popular da China à grande venda de armamentos dos Estados Unidos para Taiwan não é apenas mais um capítulo da longa e conturbada relação entre Washington e Pequim — é um divisor de águas na postura estratégica das potências globais e um alerta sobre os perigos de uma nova era de confrontos por procuração. A decisão norte-americana de fornecer pacotes de armas avaliados em cerca de US$ 11,1 bilhões para Taipei, incluindo sistemas avançados de foguetes, artilharia autopropulsada e drones, evidencia a determinação do governo Trump em jogar combustível em uma fogueira que pode sair do controle.

Pequim, por sua vez, respondeu com medidas punitivas que vão além de meros protestos diplomáticos. O Ministério das Relações Exteriores chinês decretou sanções contra 20 empresas militares americanas e 10 executivos seniores, congelou ativos, proibiu transações e vetou vistos de entrada em território chinês para os alvos. O gesto reitera que Taiwan, província chinesa, é uma “linha vermelha” intransponível nas relações com qualquer poder externo.

Para a China, que reafirma a Política de Uma Só China, qualquer armamento externo entregue a Taipei não é visto como um simples acordo comercial, e sim como uma interferência nos seus assuntos internos, uma afronta à sua integridade territorial e à visão e objetivo de reunificação nacional. Para Pequim, não há concessões. Todos os países soberanos do mundo tratariam a questão da mesma forma diante de uma situação parecida.

Por outro lado, é preciso reconhecer que os Estados Unidos, de fato, encaram Taiwan como um mero comprador de armas e aliado de ocasião: sempre que a relação com Pequim deteriora, Washington utiliza Taiwan como elemento de provocação. Esse padrão de comportamento tem sido repetido por administrações sucessivas, independentemente dos partidos no poder, e traduz uma tentativa constante de pressão e contenção a Pequim.

Os Estados Unidos quanto à China continuam num jogo de soma zero. Parecem não querer entender a mudança do equilíbrio global de poder e o quanto a agenda do Sul Global observa na China um parceiro muito mais estável e confiável.

O comportamento provocativo de Washington incentiva um armamentismo acelerado que não implica uma garantia de paz; ao contrário, tende a criar um ambiente em que qualquer faísca pode desencadear uma crise maior. Taiwan deveria aprender com a Ucrânia as lições e o custo associado a acreditar nas promessas do Ocidente.

As sanções chinesas têm, portanto, um significado político que transcende a esfera comercial: elas são um aviso explícito de que Pequim está disposta a confrontar economicamente Washington para proteger o que considera seus interesses vitais. É igualmente preocupante que este embate venha acompanhado de um discurso de crescente militarização na região, com o Japão anunciando gastos recordes em defesa e alianças estratégicas sendo reforçadas em torno do Indo-Pacífico. Cada movimento de reforço tem um efeito retroativo sobre o outro lado, alimentando um ciclo de desconfiança e preparação para um conflito que ninguém verdadeiramente deseja.

A insistência de Washington em políticas que realçam rivalidades em vez de cooperação só nos aproxima de um cenário em que a paz regional se torna uma expectativa cada vez mais estreita. O maior erro desta perspectiva é a temerária doutrina “Paz através da Força” (“Peace through Strength”) que Trump e Netanyahu reafirmam constantemente e que só tem levado a enormes tragédias humanitárias.

Se a comunidade internacional valoriza de fato a estabilidade no Estreito de Taiwan e no Indo-Pacífico, é imperativo que os líderes mundiais invistam, efetivamente, em diálogo estratégico, medidas de confiança mútua e mecanismos de mitigação de crises. Armas provocam. Neste xadrez global, cada movimento impulsivo tem repercussões que ultrapassam fronteiras e décadas.

Muito obrigado por sua contínua confiança e leitura em 2025. Tenha um Feliz 2026. E que seja um ano de paz, apesar de tantos desafios à frente!

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