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76 Anos de Transformação e o Medo do Ocidente

76 Anos de Transformação e o Medo do Ocidente - Imagem: Reprodução / Freepik
76 Anos de Transformação e o Medo do Ocidente - Imagem: Reprodução / Freepik
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 09/10/2025, às 09h16


No dia 1º de outubro, a China celebrou o 76º aniversário da fundação da República Popular. Poucos países no mundo podem se orgulhar de um percurso de modernização tão impressionante em tão curto espaço de tempo. Em apenas sete décadas, o país saiu de uma condição de devastação e fragmentação para se tornar uma potência tecnológica, econômica e diplomática de alcance global. Essa trajetória, que combina planejamento estratégico, estabilidade institucional e uma profunda crença no papel do Estado como promotor do desenvolvimento, redefiniu o equilíbrio internacional.

Entretanto, junto com essa ascensão, surgiram também temores, especialmente no Ocidente, onde a China é frequentemente vista mais como uma ameaça do que como um parceiro. Esses receios revelam mais sobre as inseguranças do Ocidente diante de um novo tempo histórico do que sobre a realidade chinesa. Podemos agrupá-los em cinco grandes dimensões.

A primeira é ideológica. Há quem ainda enxergue na China uma herdeira do modelo soviético — uma leitura equivocada que ignora o fato de que o “socialismo com características chinesas” difere radicalmente do comunismo de inspiração leninista. O pragmatismo chinês substituiu o dogmatismo soviético. A ênfase está na harmonia social e na prosperidade material, e não na revolução permanente. Trata-se de um projeto que combina a busca pelo bem comum com o reconhecimento das particularidades culturais e históricas do país.

O segundo fator é demográfico e econômico. Com mais de 1,4 bilhão de habitantes e um mercado doméstico em constante expansão, a China já ultrapassou os Estados Unidos em paridade de poder de compra e, em poucos anos, pode superá-los também em termos absolutos. Esse cenário inquieta Washington, que vê sua liderança econômica e simbólica gradualmente desafiada. A história, porém, mostra que hegemonias são transitórias. Assim como a Inglaterra cedeu lugar aos Estados Unidos no século XX, é natural que uma civilização milenar recupere seu papel central no sistema internacional.

O terceiro é estrutural. O crescimento chinês ocorre num momento em que o Ocidente enfrenta crise de confiança, fragmentação política e estagnação econômica. Enquanto Europa e Estados Unidos discutem identidades e se dividem internamente, a China mantém o foco em sua agenda de longo prazo: inovação, infraestrutura, transição energética e modernização tecnológica. É verdade que o país enfrenta desafios, como um aumento no desemprego da juventude, a desaceleração global e as tensões comerciais, mas dispõe de instrumentos de política econômica e de um vasto mercado doméstico que lhe conferem resiliência incomparável.

O quarto é civilizacional. A ascensão chinesa representa, para muitos, o fim da ilusão de que o Ocidente detém o monopólio do progresso e da racionalidade. Durante séculos, as narrativas eurocêntricas apresentaram a história como uma linha reta que partia da Grécia, passava por Roma e culminava nos Estados Unidos. A emergência da China — com sua tradição confuciana, seu senso de continuidade e sua visão de mundo pautada na harmonia — rompe esse paradigma e recoloca a Ásia no centro do tabuleiro global.

Por fim, o quinto fator é o papel do Estado. O Ocidente, nas últimas décadas, tornou-se excessivamente crítico da ação estatal, ao associá-la à ineficiência e ao privilégio de poucos. Sob a influência do liberalismo econômico, passou-se a defender que o Estado deveria interferir o mínimo possível, esquecendo-se de que certas responsabilidades — como segurança, educação, estabilidade e bem-estar — jamais poderão ser integralmente transferidas ao setor privado. Na tradição chinesa, marcada por séculos de organização imperial, o Estado é visto como o árbitro último da vida social, o garantidor da ordem e o promotor da harmonia coletiva. Não é um inimigo, mas um parceiro essencial na construção do interesse comum. O desafio, claro, está em assegurar sua eficiência e meritocracia, de modo que o serviço público seja instrumento de excelência e não de privilégio.

O 1º de outubro, portanto, não é apenas uma data comemorativa para os chineses. É um lembrete para o mundo de que os ciclos civilizacionais são inevitáveis e que o futuro pertence não a quem teme a mudança, mas a quem sabe compreendê-la e moldá-la. Em vez de ver na China uma ameaça, o Ocidente deveria enxergar uma oportunidade de cooperação e aprendizado. Pois, como ensina Confúcio, “o sábio adapta-se às circunstâncias como a água molda-se ao vaso que a contém”


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