Mara Machado Publicado em 11/03/2025, às 08h44
Médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde, que dedicam tanto pelo bem-estar das pessoas, deveriam contar com cuidados exemplares para a própria saúde física e emocional. Parece algo óbvio, tanto pela proximidade com o universo da saúde, quanto pela necessidade de estar bem o suficiente para promover o melhor cuidado ao próximo. Mas não é essa a realidade que encontramos no Brasil.
Esgotamento físico e mental, estresse e outros fatores associados têm se mostrado elementos constantes na vida desses profissionais. A constatação é de um levantamento realizado pelo IQG (Instituto Qualisa de Gestão) em nove grandes hospitais de diferentes regiões do país, onde trabalham mais de 12 mil colaboradores. O estudo obteve 31,2% de adesão, com 95% de confiabilidade nos resultados.
Além do impacto individual desse esgotamento, existem reflexos estruturais. Um profissional de saúde nessas condições tende a ausências mais recorrentes no trabalho e, mesmo quando presente, deixa de ser tão produtivo quanto poderia. Essa redução da capacidade produtiva, chamada de presenteísmo, somada ao absenteísmo, gerou uma perda anual de aproximadamente 914 mil horas de trabalho.
Em outras palavras, médicos e demais profissionais de saúde estão com a capacidade produtiva 27% menor, gerando prejuízos de R$ 22 milhões às instituições. A sociedade perde, com menos estrutura de assistência em saúde, e o paciente também acaba sob risco aumentado de erro médico, pois o risco de erros clínicos chega a ser 2,2 vezes maior em profissionais com quadro de burnout.
Por mais alarmante que a situação pareça, não podemos nos permitir soluções simplistas ao problema, como contratar mais médicos (embora também necessário) ou simplesmente substituir aqueles em produtividade reduzida. A questão é mais complexa e reque medidas de amplo alcance.
Primeiro, devemos aprimorar a gestão e segurança ocupacional, com foco na saúde do colaborador, observando as necessidades locais e diferenças regionais. Precisamos investigar a fundo, para criar soluções personalizadas que contribuam com a manutenção do bem-estar da categoria. Acima de tudo, não podemos deixar que a cultura do silêncio, em que erros e falhas são pouco discutidos por medo de represálias, seja um obstáculo para o aprimoramento contínuo da segurança do paciente.
Segundo, precisamos conscientizar gestores e lideranças públicas e privadas, para a construção de políticas públicas robustas e direcionadas às necessidades nacionais e regionais. Para uma transformação efetiva do cenário, o esforço deve ser coletivo e unificado, na busca por uma assistência cada vez mais segura, eficiente e humanizada, garantindo melhores desfechos clínicos e maior confiança dos pacientes no sistema de saúde.
Aqueles que dedicam tanto pelo cuidado com a nossa saúde precisam de mais atenção e suporte para o cuidado com a própria saúde.