
por Mara Machado
Publicado em 23/02/2026, às 10h38
Embora o debate sobre saúde mental esteja ganhando cada vez mais espaço nas empresas e na imprensa, o foco ainda permanece excessivamente direcionado ao indivíduo, abordando questões como a sua resiliência, a sua capacidade de lidar com pressão e o seu equilíbrio emocional. Pouco se discute, no entanto, sobre a estrutura de trabalho que produz esse desgaste.
Os números ajudam a dimensionar o cenário. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que o Brasil figura entre os países com maiores índices de transtornos de ansiedade no mundo. Entre 2013 e 2019, a prevalência de sintomas depressivos praticamente dobrou entre jovens adultos. Após a pandemia, o quadro se agravou ainda mais: em 2021, mais de 20% dos brasileiros relataram sintomas de estresse, ansiedade ou depressão.
Os impactos já se tornaram preocupantes no sistema previdenciário. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, o que representa um crescimento de 15,66% em relação a 2024. Transtornos ansiosos e episódios depressivos lideram os afastamentos. São Paulo concentra o maior número de concessões, com 149.375 benefícios. As mulheres representam quase dois terços dos afastamentos por esse grupo de doenças.
É nesse contexto que uma pesquisa realizada com 1.052 profissionais de três hospitais paulistas lança luz sobre uma dimensão ainda menos explorada: o funcionamento psicológico das próprias organizações. Utilizando o Copenhagen Psychosocial Questionnaire (CoPsoQ II-Br), instrumento internacionalmente validado, o levantamento da Vértea, braço de educação continuada do Instituto Qualisa de Gestão (IQG), identificou que mais de 70% dos profissionais atuam em ambientes favoráveis ao estresse crônico.
O dado não aponta para fragilidade individual, mas para um padrão estrutural. Exigências elevadas, ritmo intenso, pressão constante e ambiguidade organizacional aparecem fortemente conectados. O estresse deixa de ser episódico e passa a ser parte da arquitetura cotidiana do trabalho. Mais preocupante ainda é a fragilidade dos fatores de proteção. Elementos como apoio institucional, previsibilidade, reconhecimento e senso de justiça, que deveriam funcionar como amortecedores emocionais, não estão operando com eficácia. Quando esses mecanismos falham, o risco deixa de ser pessoal e se torna sistêmico.
Em ambientes hospitalares, esse cenário tem implicações que vão além da saúde mental dos profissionais. Sistemas psicologicamente pressionados operam com menor margem de segurança, menor capacidade de aprendizagem e maior reatividade. Trata-se de um risco assistencial latente, mesmo quando indicadores tradicionais ainda não apontam crise explícita.
Cuidar da saúde mental no trabalho, portanto, não é apenas uma agenda de bem- estar individual. É uma decisão de governança. Se o sofrimento é estrutural, as soluções também precisam ser. Revisar a organização do trabalho, fortalecer fatores de proteção e incorporar o risco psicossocial como variável estratégica são passos fundamentais para garantir sustentabilidade institucional e segurança assistencial.
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