Geraldo Vaz Junior, de 58 anos, descobriu a doença após cirurgia; equipe médica classifica o caso como extremamente raro

Gabriela Nogueira Publicado em 16/10/2025, às 16h47
Estudos realizados indicam que o risco de transmissão de câncer através de transplantes de órgãos é inferior a 0,03%. No entanto, um caso recente levantou preocupações sobre essa possibilidade.
Um homem de 58 anos, Geraldo Vaz Junior, foi diagnosticado com câncer no fígado transplantado, meses após a cirurgia realizada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os exames revelaram que o tumor se originou do órgão doado e não do receptor, um fenômeno raro, mas documentado na literatura médica.
O paciente havia sido diagnosticado com hepatite C em 2010 e evoluído para cirrose hepática, levando-o à lista de espera por um transplante. Em julho de 2023, ele recebeu um novo fígado através do Programa Proadi-SUS, que conecta hospitais de referência a pacientes do SUS.
A esposa de Geraldo, Maria Helena Vaz, relatou que a cirurgia foi bem-sucedida; no entanto, sete meses depois surgiram nódulos no fígado transplantado. Exames subsequentes confirmaram a presença de adenocarcinoma, um tipo maligno de tumor. Uma biópsia revelou que as células cancerígenas pertenciam ao doador do órgão.
Maria Helena expressou: "Foi devastador. Meu marido recebeu um órgão com câncer. Esperamos por anos para viver um sonho, mas ele saiu de lá mais doente". Após a descoberta do câncer, Geraldo passou por um novo transplante; contudo, a doença já estava em estágio avançado e havia se espalhado para os pulmões, levando-o a uma condição paliativa.
A família questionou a equipe médica sobre o estado dos demais receptores do órgão e foi informada que estão sob monitoramento. Médicos consultados destacam que o caso é raro e enfatizam que protocolos rigorosos são seguidos para evitar a transmissão de doenças durante os transplantes. Contudo, informações sobre a unidade de saúde do doador permanecem em sigilo.
Geraldo procurou o Ministério da Saúde e o Ministério Público para investigar as circunstâncias desse evento incomum, mas ainda não obteve retorno. Não está claro se seu caso representa uma exceção estatística ou se houve falhas nos procedimentos.
O Manual dos Transplantes (2022), publicado pelo Ministério da Saúde, esclarece que pacientes com câncer não são elegíveis como doadores e detalha os processos rigorosos para triagem dos órgãos. Os testes incluem exames sorológicos e laboratoriais para descartar infecções e neoplasias transmissíveis.
Apesar disso, o manual também ressalta que não há métodos infalíveis para eliminar completamente os riscos associados à presença de células tumorais microscópicas. Médicos especialistas confirmam que casos como o de Geraldo são extremamente raros e refletem os limites da ciência médica.
Um estudo realizado por Rajeev Desai e James Neuberger analisou mais de 30 mil transplantes no Reino Unido e identificou apenas 15 casos de câncer transmitido pelo doador – sendo apenas dois envolvendo transplantes de fígado. Os pesquisadores classificaram o risco como “extraordinariamente baixo”, embora reconheçam que micrometástases possam escapar à detecção inicial.
Geraldo e sua esposa alegam não terem sido informados adequadamente sobre essas possibilidades antes da cirurgia.
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