Pesquisa do Instituto Butantan indica proteção duradoura com dose única e ausência de casos graves entre pessoas imunizadas

Letícia Sales Publicado em 06/03/2026, às 13h27
Um estudo divulgado pelo Instituto Butantan apontou que a vacina brasileira contra a dengue, chamada Butantan-DV, permanece eficaz por pelo menos cinco anos após a aplicação. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Medicine e reforçam a eficácia e a segurança do imunizante.
A vacina foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em novembro do ano passado e já começou a ser aplicada em profissionais de saúde em diferentes regiões do país. Durante o período analisado pelo estudo, nenhum dos participantes vacinados desenvolveu dengue grave ou precisou ser hospitalizado por causa da doença.
Com base nos dados coletados, a eficácia do imunizante contra formas graves da dengue ou infecções com sinais de alerta foi estimada em 80,5%. A pesquisa acompanhou mais de 16 mil voluntários, sendo cerca de 10 mil vacinados e quase 6 mil integrantes de um grupo que recebeu placebo para fins de comparação.
A diretora médica do Butantan, Fernanda Boulos, destacou que o resultado confirma não apenas a proteção da vacina, mas também a importância do esquema de dose única.
Vacinas que precisam de duas ou mais doses, a gente tem vários dados que mostram que muitas pessoas não voltam pra completar o esquema. Então, essa demonstração de que uma única dose mantém a proteção alta é muito importante. Mas é claro que nós vamos continuar acompanhando, para saber se realmente não vai ser necessário um reforço depois de 10 ou 20 anos”, afirmou.
Diferença entre faixas etárias
No geral, a eficácia da vacina contra a dengue ficou em 65%. No entanto, entre pessoas que já tiveram contato prévio com o vírus da doença, o índice de proteção chegou a 77,1%.
Os resultados também indicaram variações de acordo com a idade dos participantes. A proteção foi maior entre adolescentes e adultos do que entre crianças. Por esse motivo, a Anvisa autorizou o uso da Butantan-DV apenas para pessoas entre 12 e 59 anos, apesar de os testes clínicos terem incluído crianças a partir dos dois anos.
Eles reconhecem que os dados de segurança pra crianças estão corretos, mas como depois de cinco anos, a eficácia entre as crianças cai mais do que entre os adultos, nós precisamos saber se elas vão precisar de reforço”, explicou Fernanda Boulos.
Segundo a especialista, novos estudos já estão sendo planejados em parceria com a Anvisa para avaliar melhor a resposta imunológica de crianças e ampliar o público-alvo da vacinação no futuro.
Estudos com idosos
Além disso, o Instituto Butantan também realiza testes com idosos, grupo que apresenta maior risco de complicações pela doença. O estudo deve apresentar resultados no próximo ano.
O sistema imunológico também passa por um processo de envelhecimento, então é importante entender se os idosos tem a mesma capacidade de gerar resposta imune com a vacina”, explicou a diretora médica.
O acompanhamento desse público será feito por cerca de um ano, e os resultados serão comparados aos dados obtidos em adultos antes de serem enviados à Anvisa para avaliação.
O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM), Juarez Cunha, ressaltou que a inclusão de idosos no programa de vacinação pode ter impacto importante na saúde pública, já que a maior taxa de mortalidade por dengue ocorre nessa faixa etária.
“Ele nos mostra que a vacina se mantém protetora por um prazo bastante longo, e é extremamente segura. E esse também é um aspecto fundamental. Qualquer medicação, incluindo vacina, a gente precisa ver como eles vão se comportar com a sua utilização”, afirmou.
Produção e distribuição
A prioridade do Instituto Butantan é garantir o abastecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Após atender a demanda nacional, a instituição também pretende negociar o fornecimento de doses para outros países, principalmente da América Latina, que enfrentam surtos frequentes da doença.
Para especialistas, o desenvolvimento da vacina representa um avanço estratégico para o Brasil.
“Em termos estratégicos é fundamental que a gente tenha uma pesquisa nacional conseguindo chegar a esses produtos de ponta, eficazes e seguros. Possibilita que a gente consiga abastecer mais fácil o nosso Programa Nacional de Imunizações e também é um ativo de negociação com outros países”, destacou Juarez Cunha.
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