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Cannabis e autismo: ciência investiga efeitos e limitações

Debate sobre o uso da planta cresce com base em pesquisas científicas, relatos de pacientes e limitações clínicas

Entenda como a cannabis pode ajudar no tratamento do autismo - Imagem: Reprodução/Cultlight
Entenda como a cannabis pode ajudar no tratamento do autismo - Imagem: Reprodução/Cultlight

Gabriela Nogueira Publicado em 26/09/2025, às 19h19


Nos últimos anos, o uso terapêutico da cannabis tem se tornado um tema de crescente relevância, ampliando-se para além dos círculos acadêmicos e atraindo a atenção de famílias, profissionais da saúde e da sociedade em geral.

Relatos de melhorias significativas em sintomas como insônia, crises de agressividade e interações sociais têm circulado amplamente nas plataformas digitais, gerando uma mistura de curiosidade e otimismo entre os interessados no assunto.

No entanto, diante de tantas narrativas pessoais e expectativas crescentes, surge a necessidade de compreender o que a pesquisa científica já estabeleceu sobre o tema e quais são os limites seguros para sua aplicação.

O Sistema Endocanabinoide e suas Implicações no Autismo

A busca por entender a eficácia dos extratos de cannabis no tratamento de diversas condições, incluindo o autismo, trouxe à luz a importância do sistema endocanabinoide. Este sistema, presente em todo o organismo, desempenha um papel crucial na regulação do humor, sono, memória, apetite e resposta a estressores.

O funcionamento deste sistema se dá por meio de receptores específicos: o CB1, predominante no cérebro e associado a funções cognitivas e emocionais; e o CB2, mais encontrado no sistema imunológico, ligado à modulação de inflamações. Além disso, ele envolve endocanabinoides naturais produzidos pelo corpo, como a anandamida, bem como as enzimas que controlam sua síntese e degradação.

Um estudo conduzido pela Universidade de Stanford revelou que indivíduos dentro do espectro autista apresentam níveis inferiores de anandamida e indícios de disfunção nos receptores CB1. Esses resultados corroboram achados anteriores em pesquisas com animais, sugerindo que anomalias nesse sistema podem estar relacionadas ao autismo. Assim, há potencial para que compostos derivados da cannabis possam ajudar na mitigação de certos sintomas associados ao transtorno.

Variedades de Cannabis e Experiências Clínicas

A planta da cannabis contém cerca de cem canabinoides identificados, mas apenas uma fração deles foi submetida a investigações com foco medicinal.

Entre eles, o CBD (canabidiol) se destaca por ser amplamente estudado. Sem propriedades psicoativas, este composto já demonstrou efeitos positivos como ansiolítico, anti-inflamatório e anticonvulsivante.

Por outro lado, o THC (tetra-hidrocanabinol) é reconhecido por seus efeitos psicoativos. Em doses elevadas, pode provocar comprometimentos cognitivos e alterações emocionais, além de aumentar o risco de episódios psicóticos em jovens. No entanto, quando administrado sob supervisão médica em quantidades controladas, pode ser benéfico para gerenciar sintomas complexos e possibilitar a redução do uso de outros medicamentos com efeitos colaterais significativos.

Médicos que integram a cannabis em seus tratamentos relatam casos promissores quando há uma seleção cuidadosa e monitoramento constante. Um caso notável é o de um jovem com autismo severo que apresentava comportamentos autolesivos graves. Após a introdução de um extrato full spectrum contendo CBD e THC em dose ajustada às suas necessidades individuais, conseguiu reduzir a medicação convencional para apenas um medicamento em dose baixa. O resultado foi uma melhora significativa na interação social, qualidade do sono e cicatrização das lesões causadas por suas autoagressões.

Desafios Legais e Necessidade de Estudos Aprofundados

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite a prescrição de produtos à base de cannabis com receita médica especial. Esses produtos estão disponíveis em farmácias autorizadas ou podem ser importados mediante autorização prévia.

Ainda assim, não existem diretrizes específicas voltadas para o tratamento do autismo com esses produtos. Portanto, é imprescindível que cada caso seja avaliado individualmente, considerando o histórico clínico do paciente e as expectativas quanto aos potenciais benefícios.

Embora existam relatos encorajadores sobre os efeitos da cannabis no manejo do autismo, muitos desafios permanecem sem resposta: a determinação da dosagem ideal, a padronização das formulações e a identificação dos perfis dos pacientes que mais se beneficiariam desse tratamento. Tais questões necessitam de investigações rigorosas e estudos prolongados para serem elucidadas adequadamente.

À medida que os conhecimentos científicos evoluem nesse campo promissor, é fundamental que o uso da cannabis no tratamento do autismo seja realizado com cautela. A supervisão médica atenta e uma abordagem individualizada são essenciais para garantir que os avanços sejam efetivos e respaldados por evidências concretas.


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