
por Reinaldo Polito
Publicado em 05/01/2025, às 07h57
Notícia alarmante logo pela manhã: a saída de dólares do país em 2024 alcançou a terceira maior posição na série histórica! Os números, ao menos para a economia brasileira, são assustadores. Cifras estratosféricas refletem a desconfiança em nossa capacidade de gestão.
O fluxo negativo atingiu quase US$ 16 bilhões, faltando apenas US$ 100 milhões para completar o número redondo. Esse volume perde apenas para 2019, com US$ 44,7 bilhões, e 2020, com US$ 27,9 bilhões – época da pandemia. Na via financeira, a fuga foi recorde: US$ 84,4 bilhões.
Esses números não são os únicos que preocupam. Há outros indicadores que tiram o sono. Com o dólar flertando com cotações próximas a R$ 6,20, nossa moeda já se desvalorizou 27%. Quem apostou no real amargou um grande prejuízo.
Dinheiro perdido não volta
E como dizia um antigo professor de Moeda e Bancos na Faculdade de Economia: "São valores que escapam pelos dedos para nunca mais voltar". As pessoas podem até ganhar dinheiro em outros momentos, mas o que já escapuliu, foi. Quem não confiou nos planos e projetos delineados pelo governo se safou. Quem acreditou, perdeu.
O mercado não funciona na base da ideologia. Para essa turma, não há esquerda nem direita – apenas rentabilidade, segurança e liquidez. Afora esse "triângulo mágico", é conversa fiada. Quem diz que o mercado não tem patriotismo e foge ao primeiro sinal de perigo está certo. Assim funciona o mundo desde sempre.
O motivo por trás do cenário negativo
O principal motivo desse quadro é o cenário fiscal do país. Investidores internacionais não colocam dinheiro por caridade ou simpatia pelo presidente ou pelo Banco Central. Para eles, é preto no branco. Discursos populistas não só deixam de ser motivadores, como também acendem luzes de alerta – ou vermelhas, como no caso atual.
Com um endividamento crescente e sem sinais claros de que o governo controlará essa tendência, os investidores viram as costas rapidamente. Aqui cabe uma máxima: farinha pouca, meu pirão primeiro.
Difícil de convencer
Mesmo apresentando saldo positivo no comércio exterior, na casa de US$ 70 bilhões, o quadro geral não convence. Taxas de juros elevadas – consequência de uma inflação persistente, provocada pela, sempre ela, política fiscal desordenada – compõem a tempestade perfeita.
Diante dessas incertezas, há um componente emocional que se destaca. Sempre que surgem crises, as pessoas tendem a ampliá-las na imaginação: deixam de investir, comprar ou empreender. A fábula de Nasrudin e a peste ilustra bem esse fenômeno:
O medo mata mais
"A peste ia a Bagdá para matar 10 mil pessoas. Após algum tempo, Nasrudin encontrou a peste novamente e a confrontou: 'Mentiste! Mataste 100 mil.' A peste respondeu: 'Eu matei 10 mil, as outras morreram de medo.'"
O mercado financeiro não é diferente. Ao menor sinal de perigo, busca abrigo, mesmo que as tragédias nem sempre se concretizem. Essa retração, por sua vez, cria um ciclo vicioso: menos investimento gera menos crescimento, que gera ainda mais medo.
Problemas estruturais e falta de ação
O Ministério da Fazenda planejava economizar R$ 70 bilhões. No entanto, o pacote foi desidratado para meros R$ 20 bilhões. Não é só o valor em si, mas a incapacidade de executar o necessário que preocupa.
Além disso, as ações emergenciais têm custado caro. Para conter o descontrole cambial, o Banco Central realizou 14 intervenções só em dezembro. Essas operações movimentaram mais de US$ 32 bilhões, o que reduziu nossas reservas cambiais em US$ 33 bilhões – a maior queda desde o início da série histórica, em 1998. Apesar do esforço, os resultados foram tímidos, e o dólar continua rondando os níveis recordes.
Impacto externo com as promessas de Trump e o dólar
Outra complicação no horizonte se descortina. Se as promessas de Trump forem mesmo postas em prática, o mercado americano pode enfrentar inflação. Para contê-la, o governo precisará aumentar as taxas de juros, o que pressionará ainda mais o dólar.
Diante de tantas incertezas, o melhor esconderijo para o dinheiro é o país mais forte e poderoso do mundo, os Estados Unidos – e não aqui, nesse bate-cabeça tupiniquim.
Com tantas variáveis fora de controle, o Brasil segue navegando em águas turbulentas. A saída para mudar esse cenário exige, além de políticas sólidas, coragem para encarar as reformas necessárias. O tempo dirá se tomaremos o rumo certo ou continuaremos na rota de colisão. Sei não.
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