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Lula não está sozinho nessa história de não gostar de ler

Apenas 27% dos que leem conseguem terminar um livro, levantando questões sobre o hábito de leitura no Brasil. - Imagem: Reprodução | YouTube - TV Bandeirantes
Apenas 27% dos que leem conseguem terminar um livro, levantando questões sobre o hábito de leitura no Brasil. - Imagem: Reprodução | YouTube - TV Bandeirantes
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 19/01/2025, às 09h40


A entrevista de Lula ficou para a história. Em 1981, ao participar do programa Canal Livre na TV Bandeirantes, Flávio Rangel perguntou ao então líder sindicalista: “Você não está estudando nada? Você sente necessidade de estudar?”

Sem medir palavras, Lula respondeu: “Primeiro, eu acho que sou muito preguiçoso. Até para ler eu sou preguiçoso. Eu não gosto de ler, eu tenho preguiça de ler. Pelo hábito, isso é questão de hábito. Tenho companheiro que passa um dia lendo um livro. Eu não consigo.”

Estudo revelador

Se, ao longo desses anos, ele se comportou como a maioria dos brasileiros, sua falta de interesse pela leitura não deve ter mudado. Pelo menos é o que revela uma devastadora pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro. Os dados desse estudo são preocupantes e mostram que, no Brasil, a maioria das pessoas não lê.

De acordo com o Instituto, o Brasil tem mais habitantes que não leem do que leitores. No levantamento mais recente, concluído no ano passado, 53% dos entrevistados declararam que, nos últimos três meses, não haviam lido nenhum livro, seja físico ou digital. Esse dado já seria negativo por si, mas há outra informação ainda mais desoladora.

A maioria não chega ao final do livro

Entre os 47% que disseram ter lido, apenas 27% completaram a leitura do livro inteiro. Ou seja, 73% dos leitores não chegaram ao final da obra. Isso levanta a pergunta: por que há tão pouco interesse pelos livros? Poderíamos debater as razões – ou a falta delas.

Parte das explicações está no próprio estudo. Para 75% dos entrevistados, o tempo é gasto em frente às telas de smartphones e computadores, e não nas páginas de livros. Não vou discordar da pesquisa, mas tenho a impressão de que esse percentual é ainda maior.

O hábito deve ser cultivado na infância

Mas essa não poderia ser apontada como única causa, pois em 1981, quando Lula revelou sua ojeriza pela leitura, não havia internet para “roubar o tempo” das pessoas, as distrações se limitavam basicamente a assistir à televisão. A verdade é que, sem o hábito da leitura nos primeiros anos de vida, é improvável que alguém se torne leitor na idade adulta.

Tenho uma experiência pessoal curiosa. As pessoas que frequentam o meu curso de oratória, em geral, são vice-presidentes, diretores, gerentes, políticos, religiosos e profissionais liberais, quase sempre atuando nas áreas de Direito, Medicina, Engenharia e Psicologia. São, portanto, profissionais que ocupam as posições hierárquicas mais importantes em diversas atividades.

Todos muito bem-preparados

Quase todos, 98% possuem curso superior, e mais de 50% ostentam pelo menos um diploma de pós-graduação. Para chegar a esse nível, tiveram de passar muitos anos debruçados sobre os livros. Se não devoraram obras de ficção, filosofia ou biografias, ao menos precisaram se dedicar aos textos técnicos de suas áreas de formação.

Apesar desse preparo elevado, ouço de alguns a seguinte reclamação: “Tenho problema com leitura. Perdi o hábito de ler. E quando leio, não consigo me concentrar em um livro do começo ao fim; largo antes de concluir.”

O Brasil está nas últimas posições

Aqui cabe uma reflexão: se esses alunos, com formação tão sólida e ocupando postos de destaque no mundo corporativo ou em suas atividades liberais, não têm o costume de ler, não é difícil deduzir que o hábito de leitura é ainda mais raro entre aqueles que não precisaram de tantos anos de estudo formal.

Infelizmente, estamos na rabeira. Segundo a UNESCO, entre 52 países, o Brasil amarga a 47ª posição em hábitos de leitura. Os números vergonhosos não param por aí. Enquanto os brasileiros leem, em média, 1,8 livro por ano, nos países desenvolvidos essa média é de 10 livros anuais.

Depois dos 40 anos, apenas 17% gostam de leitura

Outro dado impressionante: apenas 17% dos entrevistados com mais de 40 anos se interessam por leitura. E os 83% restantes? Não é que não sintam necessidade – quase todos reconhecem que deveriam ler mais e que os livros fazem falta no dia a dia; eles simplesmente não foram incentivados a gostar de ler.

E para quem anda distante dos livros, aqui vai uma sugestão: não comece por livros densos, que exigem reflexões profundas – eles podem parecer chatos e desestimulantes. Inicie com livros leves, de um gênero que lhe agrade. Com o tempo, até as obras mais desafiadoras podem revelar mundos fascinantes, transformando a leitura em uma aventura inesquecível.


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