A cena do chá que não celebra nada (e tudo ao mesmo tempo)

Reinaldo Polito Publicado em 14/05/2025, às 09h56
Alice é surpreendida com uma festa sem motivo: o famoso chá do desaniversário, criação dos estúdios Disney inspirada no espírito nonsense de Lewis Carroll.
Era para ser só um chá. Mas, como tudo em Alice no País das Maravilhas, o que parece banal vira celebração do impossível.
Na adaptação da Disney, Alice se junta ao Chapeleiro Maluco, à Lebre de Março e ao Dormidongo em um chá que desafia a lógica. “Feliz desaniversário!”, eles gritam, brindando com bolo e música um dia qualquer – qualquer um dos 364 dias que não são o aniversário. A festa é absurda, sim. Mas libertadora.
Curiosamente, essa cena não existe nos livros originais de Carroll. O termo desaniversário é criação dos roteiristas da Disney, que captaram o espírito do nonsense carrolliano e o transformaram em poesia visual.
Alice é, por natureza, uma exploradora do ilógico. Ela não luta contra o absurdo, mergulha nele, estranha, se irrita, mas segue.Ao contrário de muitos adultos que precisam de lógica e explicações, Alice aceita que as regras mudam a todo instante.
“Às vezes, eu acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã”, diz a Rainha Branca em Através do Espelho.Alice sorri. Ela entende.
O universo de Carroll é uma crítica deliciosa ao racionalismo absoluto. Lá, o absurdo não é caos, é uma “outra lógica”, interna, misteriosa. Celebrar um desaniversário, nesse contexto, é mais do que uma piada maluca: é uma maneira de romper com o calendário do previsível. É a vida se permitindo existir mesmo quando não há motivo marcado.
A arte, como Alice, entende que nem tudo precisa ter explicação para ter valor.
Como o desaniversário, muitas criações artísticas desafiam a lógica e recusam osentido à primeira vista,o manual de instruções. E, justamente por isso, nos tocam.

Nas instalações de YayoiKusama, não há começo nem fim. O visitante se vê refletido ao infinito, seu corpo se desfazendo em fragmentos de luz que dançam no vazio. O tempo parece suspenso. Não há roteiro. Apenas luzes, ecos e o próprio olhar, em festa.
Kusama, que viveu parte da vida em hospitais psiquiátricos, entendeu como poucos o valor de um instante sem exigência. Suas obras são desaniversários visuais: um mergulho no presente, sem cobrança de passado ou futuro.
Talvez o desaniversário não seja apenas uma invenção do Chapeleiro. Talvez seja um modo legítimo de resgatar o encanto do cotidiano, o instante que chega sem ser anunciado.

A arte também ri do que parece sério. Em Magritte, o cachimbo que “não é um cachimbo” nos obriga a abandonar certezas.
Assim como o Chapeleiro, Magritte nos lembra que a realidade é apenas uma versão, e que toda representação é uma invenção da nossa percepçãoe imaginação.
Talvez festejar um desaniversário seja justamente isso: aceitar o absurdo e ver o mundo com outros olhos.

Henri Cartier-Bresson, mestre da fotografia do instante, congelava momentos que ninguém havia programado. Nenhuma data importante, nenhum marco. Apenas a delicadeza de um gesto, a dança da luz, o movimento que já vai passar.
Suas imagens são desaniversários visuais: uma celebração do que ninguém viu chegando. E que, ainda assim, merecia ficar para sempre. É pura celebração do instante.

O Brasil profundo conhece bem seus desaniversários. Um forró na praça de terça-feira. Um terço rezado na varanda. Uma fogueira improvisada. Nada foi marcado, tudo foi vivido com presença.
Celebrar o que não é marco é um convite à leveza. É lembrar que o agora também merece vela, aplauso e sorriso, mesmo que ninguém tenha soprado balões.
Festejar o desaniversário é abrir espaço para esse tipo de lógica: o não-evento, o sem-motivo.Um sorriso fora de hora. Um brinde sem razão. Um dia qualquer, especialapenas porque alguém se lembrou de olhar.
De Kusama a Cartier-Bresson, de Alice ao povo que dança sem data, o desaniversário se revela como um gesto delicado de liberdade.
Porque viver, no fundo, é isso: acordar sem data comemorativa e, ainda assim, agradecer.Olhar nos olhos de alguém sem motivo especial, e se comover.
Sorrir para um momento comum, e perceber que a vida inteira mora ali.
Então, se hoje não é seu aniversário, melhor ainda.
Feliz desaniversário pra você. E que venham muitos outros, sem motivo, sem convite, só com vontade de viver.
Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
Leia também

Sacani rebate Igor 3K, diz que versão sobre o Flow "não procede" e cobra leitura de mensagens

O fim da Ordem Mundial: 2026 e o retorno do "cada um por si"

Incêndio atinge área de preservação ambiental no bairro do Mogilar, em Mogi das Cruzes

Nova namorada de Manoel Gomes, o Caneta Azul, faz revelação sobre vida íntima do casal

Igor 3K rebate Monark e Sérgio Sacani, nega calote e revela bastidores com o Flow

Cerimônia memorial de Oliver Tree terá transmissão ao vivo

Capela dos Aflitos é reaberta na Liberdade, centro de São Paulo

Em 28 de junho, nascia Luigi Pirandello, o mestre das máscaras humanas

Polícia prende dois suspeitos de envolvimento no crime contra irmão de Eloá; veja o que se sabe

Trump ameaça destruir Irã e faz declaração explosiva após novos ataques dos EUA