Operação para hospedar delegações em Belém foi intermediada por empresa do setor de turismo com conexões empresariais ao entorno de Daniel Vorcaro; governo afirma que processo foi regular e auditado.

Ana Beatriz Publicado em 23/04/2026, às 17h24
O Brasil está se preparando para sediar a COP30 em Belém, com um contrato de R$ 350 milhões para aluguel de navios de cruzeiro como hospedagem para delegações internacionais, visando resolver a limitação da rede hoteleira local.
A contratação foi realizada pela Embratur com a empresa Quali Tours, que gerou controvérsias devido a suas conexões com o Banco Master e o empresário Marcelo Cohen, levantando questões sobre possíveis conflitos de interesse.
Apesar das críticas, a Embratur defendeu a escolha da empresa, afirmando que o processo foi transparente e aprovado pelo Tribunal de Contas da União, enquanto a COP30, marcada para novembro de 2025, continua a ser um tema central no debate político.
A preparação do Brasil para sediar a Conferência do Clima da ONU, a COP30, em Belém, no Pará, trouxe à tona um contrato de grande porte que passou a ser alvo de debate político e institucional. O governo federal contratou o aluguel de navios de cruzeiro para hospedar delegações internacionais durante o evento, em uma operação estimada em cerca de R$ 350 milhões.
A iniciativa buscou solucionar um dos principais gargalos logísticos da conferência, que é a limitação da rede hoteleira da capital paraense diante da expectativa de receber milhares de participantes de diferentes países. A alternativa encontrada foi utilizar embarcações como hospedagem temporária, prática já adotada em outros grandes eventos internacionais.
A contratação foi realizada por meio da Embratur, que conduziu o processo de seleção da empresa responsável pela intermediação do serviço. A escolhida foi a Quali Tours, empresa do setor de turismo que ficou encarregada de viabilizar o aluguel das embarcações.
O caso ganhou repercussão após a divulgação de informações sobre a estrutura societária da empresa e suas conexões empresariais. A Quali Tours pertence ao empresário Marcelo Cohen, que é apontado como sócio do banqueiro Daniel Vorcaro em um empreendimento hoteleiro de alto padrão em Campos do Jordão. Vorcaro é conhecido por ser o principal nome por trás do Banco Master.
Além disso, a empresa integra o grupo Buffle, uma holding criada durante a pandemia com recursos de fundos ligados ao Banco Master, o que ampliou os questionamentos sobre possíveis relações indiretas entre o contrato público e interesses privados.
Apesar das conexões empresariais, a Embratur afirmou, em nota oficial, que a escolha da Quali Tours ocorreu por meio de chamamento público e que a empresa apresentou toda a documentação exigida para a execução do contrato. A agência também destacou que o Banco Master não teve participação direta na contratação.
Outro ponto levantado pela Embratur foi a estrutura financeira da operação. Segundo a entidade, o financiamento foi garantido pelo BTG Pactual, sem envolvimento do Banco Master na transação.
O governo também ressaltou que o modelo adotado foi submetido à análise do Tribunal de Contas da União, que avaliou a contratação. De acordo com a auditoria, o formato com intermediação foi considerado mais vantajoso do que uma eventual contratação direta das embarcações, especialmente diante da complexidade logística e da necessidade de garantir disponibilidade em escala internacional.
A própria Quali Tours declarou que o processo seguiu todos os critérios legais e que a operação está em conformidade com as exigências regulatórias.
A COP30 está prevista para ocorrer em novembro de 2025, reunindo chefes de Estado, representantes de organismos internacionais, especialistas e organizações da sociedade civil para discutir mudanças climáticas. O evento é considerado estratégico para o posicionamento do Brasil no cenário ambiental global, especialmente após o país retomar protagonismo nas agendas climáticas.
No entanto, a dimensão financeira e operacional da preparação tem gerado escrutínio crescente. O uso de recursos públicos em contratos de grande valor, aliado à complexidade das relações empresariais envolvidas, tende a manter o tema no centro do debate político nas próximas semanas.
Especialistas apontam que grandes eventos internacionais frequentemente exigem soluções logísticas excepcionais, o que pode elevar custos e demandar modelos de contratação mais complexos. Ainda assim, a transparência nos processos e a clareza sobre os critérios de escolha permanecem como fatores centrais para evitar questionamentos e garantir legitimidade às decisões.
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