Os escravizados contaram que comiam 'tripas e lesma'

Vitória Tedeschi Publicado em 17/11/2022, às 17h56
Na última quarta-feira (16), desembarcaram, às 16h40, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, 10 brasileiros que estavam sendo mantidos em situação de escravidão em Myanmar, na Ásia.
Eles foram atraídos por ofertas de trabalho e acabaram reféns de uma quadrilha internacional, sendo obrigados a trabalhar 14 horas por dia e apenas uma folga por mês.
"Sempre com pessoas armadas ameaçando a gente", relata um dos jovens que foi enganado ao ouvir que estava indo para a empresa, mas foi levado para um verdadeiro cativeiro.
Chegando em Myanmar, todos receberam um treinamento para aplicar golpes virtuais em pessoas do mundo todo. Uma das vítimas diz que precisou se passar por uma mulher e usar perfis falsos para seduzir e convencer homens a investir milhares de dólares em criptomoedas.
Vale citar que as vítimas de tráfico humano conseguiram ser libertadas somente depois que uma reportagem exibida pela Record TV alertou as autoridades.
Ao O Globo, Nathalia Belchior Munhoz, de 25 anos, moradora de Ribeirão Pires (SP), uma das vítimas do esquema, relatou que viajou durante dois dias de carro após desembarcar em Bangcoc, até a chegada num local chamado KKparque, já em Myanmar: uma espécie de condomínio dominado e vigiado pela milícia que a sequestrara.
"Lá ela começou a situação inóspita que enfrentaria. Um ambiente hostil, agressivo, com duras horas de trabalho. E ela contou que eles eram ainda mais cruéis e agressivos com os asiáticos mantidos lá. Mas todos eram vigiados pelos rebeldes ou milicianos fortemente armados, que não deixavam ninguém sair do parque. Entravam e saíam apenas com a autorização do chefe da quadrilha", conta o pai da mulher.
Ainda muito abalada, Nathalia ainda não consegue falar muito sobre o que passou, mas deu alguns detalhes sobre como era mantida no cárcere.
Comia tripas, lesmas, dormi em chão duro, passei fome e frio", afirmou.
A vítima também relata que, no cativeiro, muitas pessoas consumiam alimentos em mamadeiras, por vezes agiam como crianças. Outros, eram semelhantes a indígenas. "Um povo muito sofrido, pobre", definiu. As condições sanitárias eram precárias. Além de tudo, ela conta que sofria com as diferenças culturais em relação à alimentação.
"Eles comem cobras, escorpiões, pato, rãs, muitos legumes, muito miojo. O café da manhã lá às vezes era miojo... a água que nos davam para beber era salobra", contou ainda Nathalia.
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