Dados mostram que causas de muitas mortes seguem sem esclarecimento em meio à queda oficial da violência

Sabrina Oliveira Publicado em 12/05/2025, às 14h08
O estado de São Paulotem, oficialmente, a menor taxa de homicídios do Brasil, com 6,4 mortes por 100 mil habitantes. Mas um dado chama a atenção: o número de mortes violentas sem causa definida também é o mais alto do país. Isso levanta dúvidas sobre a real dimensão da violência no estado mais populoso do país.
Segundo o Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Ipeae pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 60% das mortes com causa indeterminadano Brasil ocorreram em São Paulo no ano passado. O índice estadual é de 4,8 mortes por 100 mil habitantes, quase três vezes a média nacional.
Esses casos envolvem mortes violentas que, por diferentes motivos, não foram classificadas como homicídio, suicídio ou acidente. São registros que dependem de laudos médicos e perícias, mas que acabam rotulados como “causa indeterminada”por falta de elementos conclusivos.
Segundo especialistas, esse tipo de classificação pode mascarar assassinatos não reconhecidos oficialmente. “Se o médico legista tem dúvida, ele marca como indeterminada. Mas quando esse tipo de registro se torna muito comum, há algo errado na forma como os dados são produzidos”, afirma Samira Bueno, diretora do Fórum.
Se considerarmos apenas os homicídios oficialmente registrados, São Paulo aparece como o estado menos violento. Porém, ao somar as mortes por causa indeterminada, a taxa salta para 11,2 mortes por 100 mil habitantes. Com isso, Santa Catarina passa a liderar o ranking de segurança.
Esse contraste revela um problema mais profundo: os dados oficiais não contam a história completa. E sem informações confiáveis, torna-se mais difícil formular políticas eficazes de segurança pública.
Entre 2013 e 2023, os homicídios ocultos cresceram 130% em São Paulo. Em 2013, o estado registrou 989 mortes com causa indeterminada. Já em 2023, esse número quase triplicou, chegando a 2.277 casos.
Esse aumento coincide com uma queda sistemática nos homicídios oficialmente registrados, o que reforça as suspeitas de subnotificação e falhas nos registros.
A gestão do governador Tarcísio de Freitastem sido alvo de críticas constantespor parte de especialistas e entidades civis. Além da alta nos homicídios ocultos, o estado enfrenta denúncias sobre letalidade policial, fragilidade nos registros médicose mudanças polêmicas no uso de câmeras corporais.
O governo chegou a firmar um acordo com a Defensoria Públicae o Supremo Tribunal Federalpara alterar o uso desses equipamentos. Agora, as câmeras funcionam com gravação acionada remotamente, diferente do modelo anterior, que gravava de forma contínuadurante todo o turno.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP)de São Paulo argumenta que os dados do Atlas se baseiam em critérios distintos. Enquanto os dados estaduais têm caráter jurídico e criminológico, os do levantamento são de natureza sanitária, baseados no DataSUS.
A pasta afirma que implementou o programa SPVida, que analisa todos os casos com vítimas fatais. Segundo a SSP, isso garante que cada ocorrência seja devidamente registrada e investigada, com transparência.
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