Diário de São Paulo
Siga-nos
Aquecimento Global

Terra pode bater novos recordes de calor nos próximos cinco anos, afirma ONU

Novo relatório da OMM aponta que os próximos cinco anos podem estabelecer novos recordes de calor, aumentando riscos de desastres naturais

Com 80% de chance de temperaturas recordes, o relatório destaca a urgência de ações contra o aquecimento global e suas consequências - Imagem: Reprodução / Freepik
Com 80% de chance de temperaturas recordes, o relatório destaca a urgência de ações contra o aquecimento global e suas consequências - Imagem: Reprodução / Freepik

William Oliveira Publicado em 28/05/2025, às 11h25


Um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), órgão vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), revela que há 80% de chance de que as temperaturas globais estabeleçam novos recordes anuais de calor nos próximos cinco anos. Esse cenário aumenta a probabilidade de secas severas, inundações e incêndios florestais em escala global.

Pela primeira vez, o documento aponta uma leve possibilidade de que o planeta registre um ano com temperatura 2 °C acima dos níveis da era pré-industrial antes de 2030 — uma perspectiva considerada "chocante" por especialistas. Os últimos dez anos já foram os mais quentes da história, e a atualização climática da OMM destaca uma ameaça crescente à saúde pública, às economias e aos ecossistemas, caso não haja uma redução drástica no uso de combustíveis fósseis.

“Acabamos de viver os dez anos mais quentes já registrados. Infelizmente, esse relatório não mostra sinais de abrandamento”, afirmou Ko Barrett, secretário-geral adjunto da OMM. A análise sugere uma probabilidade de 70% de que a média de aquecimento global entre 2025 e 2029 ultrapasse 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais.

Essa projeção coloca o mundo à beira de ultrapassar a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, que estipula o limite de 1,5 °C de aumento com base em uma média de 20 anos. O relatório estima em 86% a chance de que esse limite seja superado em pelo menos um dos próximos cinco anos — um salto considerável frente aos 40% apontados em 2020.

Em 2024, o mundo já ultrapassou o limite de 1,5 °C pela primeira vez em um ano completo, o que antes era considerado improvável. Os cientistas baseiam-se no período de 1850 a 1900 como referência para as temperaturas pré-industriais, anterior à intensificação do uso de combustíveis fósseis.

Embora o limite de 1,5 °C tenha sido estabelecido como meta ideal durante a COP21 em Paris, especialistas avaliam que seu cumprimento se torna cada vez mais difícil, uma vez que as emissões de CO₂ seguem em alta, sem sinais concretos de retração.

O climatologista Peter Thorne, da Universidade de Maynooth (Irlanda), afirmou que o mundo pode ultrapassar de forma duradoura os 1,5 °C até o fim desta década ou no início da próxima. Christopher Hewitt, diretor dos Serviços Climáticos da OMM, explicou que diferentes metodologias estão sendo aplicadas para avaliar esse aquecimento prolongado.

Uma dessas abordagens, que combina dados dos últimos dez anos com projeções futuras, estima que o aquecimento médio atual esteja em torno de 1,44 °C para o período de 2015 a 2034 — valor que dialoga com as medições do observatório europeu Copernicus.

A atualização também indica, pela primeira vez, que há uma chance — ainda que pequena, de 1% — de que a média anual atinja 2 °C acima dos níveis pré-industriais. A estimativa foi feita por um consórcio internacional de centros meteorológicos. Para Adam Scaife, do Met Office britânico, o fato de esse número já ser cogitado é “alarmante”, considerando que há uma década esse risco parecia improvável.

Cada fração adicional de aquecimento intensifica eventos extremos como ondas de calor e chuvas torrenciais. A expectativa é que 2025 esteja entre os três anos mais quentes da história.

Chris Hewitt alertou para as consequências severas para a saúde humana diante da intensificação das ondas de calor, mas ressaltou que ainda é possível limitar o aquecimento global, desde que haja redução urgente das emissões. Nos últimos meses, países como China e Emirados Árabes Unidos enfrentaram temperaturas próximas a 52 °C.

A climatologista Friederike Otto, do Imperial College London, alertou que o planeta já atingiu um ponto perigoso em termos de aquecimento, com eventos extremos, como enchentes, sendo prova disso.

A OMM também destaca que o aquecimento no Ártico continuará superando a média global nos próximos cinco anos. Os invernos na região podem aquecer até três vezes mais rapidamente devido ao derretimento do gelo marinho. Além disso, certas áreas do planeta devem experimentar climas mais secos ou úmidos à medida que as mudanças climáticas se intensificam.


últimas notícias