Tipo de óleo extraído no país é fundamental para o funcionamento de refinarias americanas e ajuda a entender o interesse de Washington

Lívia Gennari Publicado em 05/01/2026, às 15h00
A ofensiva militar dos Estados Unidos em Caracas, que resultou na prisão de Nicolás Maduro, redesenhou o equilíbrio de forças na Venezuela. O episódio aprofundou a instabilidade política do país e inaugurou um período de incertezas sobre os rumos institucionais, econômicos e sociais da nação sul-americana.
Em meio a esse novo cenário, as declarações vindas de Washington ampliaram a tensão. Poucas horas após a operação, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o país assumirá a condução da Venezuela até que seja estabelecida uma “transição segura”. A fala provocou reações imediatas da comunidade internacional e reforçou a percepção de que, além da mudança política, interesses econômicos estratégicos pesam sobre a intervenção, com destaque para a principal riqueza venezuelana: o petróleo.
Riqueza concentrada, economia vulnerável
A economia da Venezuela sempre esteve fortemente atrelada à exploração petrolífera. Durante anos, o governo de Nicolás Maduro dependeu quase exclusivamente da commodity para sustentar o Estado, mesmo sob duras sanções internacionais e isolamento diplomático. O petróleo bruto e seus derivados respondem por cerca de 90% das receitas de exportação do país, e sustentam um modelo econômico hoje marcado por fragilidade e baixa diversificação.
Mesmo concentrando as maiores reservas de petróleo do planeta, avaliadas em mais de 300 bilhões de barris, a Venezuela tem hoje peso reduzido no mercado internacional. O país responde por menos de 1% da produção global, um recuo acentuado em relação aos anos 1960, quando sua participação superava os 10%.
O colapso da indústria petrolífera venezuelana é resultado de décadas de má gestão, falta de investimentos, corrupção e sanções econômicas. Desde o fim dos anos 1990, a produção de petróleo bruto caiu mais de 70%, empurrando o país para o 21º lugar entre os maiores produtores globais.
Do investimento à tensão
Historicamente, os Estados Unidos tiveram papel central no desenvolvimento do setor petrolífero venezuelano ao longo do século 20. Grandes empresas americanas investiram fortemente no país, estabelecendo uma relação estratégica que começou a se desgastar com a chegada de Hugo Chávez ao poder em 1999.
As políticas do chavismo, incluindo nacionalizações e maior controle estatal sobre a indústria, diminuíram a influência das companhias americanas e, mais tarde, o endurecimento das sanções durante o governo Maduro aprofundou essa ruptura.
O detalhe que torna a Venezuela estratégica para os EUA
À primeira vista, o interesse direto de Washington no petróleo venezuelano pode parecer contraditório, já que os Estados Unidos são atualmente o maior produtor de petróleo do mundo. A diferença, porém, está no tipo de petróleo. A produção americana é majoritariamente de petróleo leve, enquanto muitas refinarias do país — especialmente as localizadas na costa do Golfo do México — são projetadas para processar petróleo pesado, mais denso e viscoso.
Por isso, mesmo com alta produção interna, os EUA continuam importando petróleo bruto pesado de países como Canadá e México. Parte significativa do petróleo leve americano, inclusive, acaba sendo exportada. Nesse contexto, o petróleo pesado da Venezuela sempre teve papel estratégico, abastecendo por décadas as refinarias americanas.
Embora a produção venezuelana esteja em níveis historicamente baixos, o país ainda concentra as maiores reservas globais desse tipo específico de petróleo, o que torna a possibilidade de retomada do acesso extremamente atrativa para empresas americanas do setor energético.
Com Maduro fora do poder e a promessa de uma “transição” conduzida sob tutela estrangeira, o futuro da Venezuela permanece indefinido. Entre disputas geopolíticas, interesses econômicos e o risco de aprofundamento da crise humanitária, o petróleo volta a se colocar como peça-chave de um jogo que pode redesenhar o destino do país e, consequentemente, o equilíbrio de forças na América do Sul.
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