
por Marcus Vinícius de Freitas
Publicado em 31/10/2024, às 10h56
A cada ação do governo israelense no Oriente Médio, o apoio inicialmente oferecido pelo Sul Global após o massacre de 7 de outubro de 2023 vem se diluindo substancialmente. Para o Sul Global, a abordagem do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu tem transformado Israel cada vez mais uma força ocupante, sem metas claras, o que provoca resistência crescente. A lição da história ibérica é relevante: após oito séculos de ocupação, os povos finalmente retomam sua agência. Da mesma forma, a resistência persistente tende a produzir novos terroristas, reforçando os desafios de Israel, em vez de diminuí-los.
Netanyahu vem adotando uma estratégia equivocada para mudar o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Ações como o assassinato de Hassan Nasrallah, do Hezbollah, e a morte de líderes do Hamas em Gaza foram tentativas de “cortar a cabeça da serpente,” em uma ação semelhante àquela adotada pelos Estados Unidos. No entanto, a história mostra que esses esforços muitas vezes resultam apenas em um corte no “rabo da lagartixa.”
O rabo regenerado da lagartixa pode ser menos funcional, mas retorna. Da mesma forma, a remoção de líderes raramente desmantela grupos terroristas, pois suas estruturas descentralizadas permitem rápida substituição de lideranças, como no caso da Al-Qaeda, que ainda mantém presença em algumas regiões. Novos líderes surgirão, alimentados pela sensação de injustiça e martírio, o que perpetua o ciclo de violência. E que encontram na juventude a massa de manobra facilmente manipulável para atingir seus objetivos.
Netanyahu – como diz a sabedoria chinesa – parece agir como quem “pesca em águas turvas” (浑水摸鱼), aproveitando-se do caos e da incerteza para eliminar figuras importantes de grupos adversários, acreditando que isso trará segurança a Israel. Contudo, o verdadeiro desafio não reside em eliminar líderes, mas em abordar as condições que favorecem o extremismo. Como Confúcio escreveu: “As armas são um elemento importante, mas não o decisivo.” Romper ciclos de violência requer enfrentar causas profundas, como a extrema falta de perspectivas para a população palestina quanto ao seu futuro. A ausência de um caminho claro para a paz, autodeterminação e prosperidade gera desespero, um terreno fértil para o extremismo.
A complexidade do desafio de conquistar corações e mentes na região se amplia na medida em que os indivíduos e comunidades são impactados diretamente por ações militares e pela ocupação, levando a uma percepção de injustiça que se enraíza nas gerações futuras. Para reverter essa situação, Israel precisaria adotar uma postura mais inclusiva e dialogar com as lideranças moderadas, oferecendo alternativas reais e concretas que deem esperança e propósito à população palestina. Investimentos em educação, desenvolvimento econômico e infraestrutura são fundamentais para criar um cenário onde a paz possa ser construída de forma sustentável.
A abordagem tradicional baseada no uso da força gera uma falsa sensação de controle a curto prazo, mas é ineficaz a longo prazo. Apenas com uma estratégia que valorize o diálogo e a cooperação será possível reduzir o apelo dos grupos extremistas e fomentar a coesão social. É essencial que Israel demonstre interesse genuíno em melhorar as condições de vida dos palestinos, promovendo o desenvolvimento de uma economia integrada que beneficie a região como um todo e ofereça oportunidades palpáveis para todos os povos envolvidos. À devastação de Gaza deveria seguir um plano de reconstrução e modernização da região. Esta é uma decisão difícil de se tomar, afinal, alguns grupos palestinos pretendem a eliminação do Estado de Israel. Mas a política de terra arrasada somente estimulará uma pior situação.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, o grande questionamento era o que fazer com a Alemanha. O Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Morgenthau Jr., apresentou uma proposta de total desindustrialização da Alemanha para que esta jamais pudesse reerguer-se como potência militar, convertendo-a em uma economia agrícola, com drástica limitação de sua capacidade industrial e, assim, evitar o ressurgimento de qualquer ameaça militar. A possibilidade de uma crise econômica e humanitária era uma preocupação, caso o Plano Morgenthau fosse implementado. E daí surgiu o conhecido idealizado pelo Secretário de Estado, George Catlett Marshall – o conhecido Plano Marshall – de reconstrução econômica, como forma de estabilizar o país e a Europa, com o intuito de evitar o surgimento de vácuo de poder, o que seria explorado pela União Soviética.
Para reverter a situação atual e construir uma base sólida para um futuro pacífico, é necessário um enfoque estratégico que vá além da simples eliminação de figuras de liderança em grupos terroristas. Como “rabos de lagartixa,” esses líderes são substituídos e reforçados pelo próprio sofrimento que suas comunidades enfrentam. O poder dos movimentos extremistas cresce em resposta direta aos erros e excessos cometidos contra eles. É preciso um plano de reconstrução efetiva de uma Palestina que coexista em paz e tranquilidade com Israel. Conquistar corações e mentes requer empatia e políticas que reconheçam a dignidade e o direito à autodeterminação. Programas de cooperação que incluam iniciativas bilaterais entre israelenses e palestinos em áreas como saúde, educação e desenvolvimento tecnológico deveriam pavimentar um caminho para a reconciliação e construção de confiança entre as partes.
As ações até agora implementadas por Israel não restauraram sua segurança efetiva. E, no caso do 7 de Outubro, resultaram em poucos resgates de reféns. Ademais, acusações de genocídio chegam à Corte Internacional de Justiça, o que constitui um embaraço à memória daqueles que foram sacrificados no Holocausto. Em lugar de reforçar uma imagem de força e inovação, a política atual expõe Israel a riscos reputacionais e coloca em xeque seu status como uma nação moderna e pioneira.
Eliminar os inimigos é uma estratégia, porém sem garantias de êxito. A paz no Oriente Médio não será conquistada pela força, mas pelo respeito mútuo e pela construção de um futuro em que todos possam coexistir. É necessário demonstrar compromisso com a justiça e com um futuro promissor para todas as comunidades envolvidas. Somente assim será possível garantir uma paz duradoura e verdadeira para Israel e para os palestinos.
Marcus Vinícius De Freitas
Professor Visitante, China Foreign Affairs University
Senior Fellow, Policy Center for the New South

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