
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 14/05/2025, às 08h00
Em maio de 2025, o mundo assistiu com surpresa a uma escalada militar entre Índia e Paquistão que trouxe à tona não apenas antigas rivalidades regionais, mas também os contornos de uma nova arquitetura estratégica global. Durante o conflito, as Forças Armadas Paquistanesas afirmaram ter abatido cinco aeronaves de combate indianas — três Dassault Rafale, um Sukhoi Su-30MKI e um MiG-29 — além de inúmeros drones, incluindo modelos Harop de fabricação israelense. A linha de controle na disputada região da Caxemira tornou-se, mais uma vez, palco de tensões militares com impacto geopolítico muito além da Ásia Meridional.
Para realizar os abates, o Paquistão mobilizou uma plataforma tecnológica sofisticada, com destaque para os caças chineses Chengdu J-10C, equipados com radares avançados e mísseis PL-15E de longo alcance — capazes de atingir alvos a mais de 160 km de distância. A Força Aérea Paquistanesa divulgou ainda coordenadas de abates e gravações de comunicações interceptadas como provas das ações bem-sucedidas.
O estopim do confronto foi a “Operação Sindoor”, lançada pela Índia em resposta a um atentado em Pahalgam, que matou 26 civis. O Paquistão respondeu com a “Operação Bunyan al-Marsus”, aprofundando os combates aéreos e digitais. Até o momento, Nova Délhi não confirmou oficialmente as perdas relatadas.
Mais do que um episódio regional, os desdobramentos do conflito revelaram o crescente papel da China como fornecedor de tecnologia de ponta em contextos militares, especialmente a países historicamente alinhados ao seu eixo estratégico. Para Beijing, o episódio simbolizou um reforço indireto de sua influência militar e diplomática, enquanto para Taiwan, representou uma demonstração preocupante da eficácia e disseminação das capacidades bélicas chinesas. A ilha deveria entender que confiar no canto da sereia de proteção militar do Ocidente é um equívoco.
O episódio do conflito entre Índia e Paquistão, ao envolver armamentos chineses de alta tecnologia, é mais um sinal de que estamos diante de um novo equilíbrio estratégico. Para países do Sul Global, a ascensão chinesa representa uma alternativa concreta ao status quo. Para Taiwan e seus aliados, trata-se de um alerta sobre os riscos crescentes de confrontos assimétricos em uma era de realinhamento global.
Essa reafirmação da presença chinesa no tabuleiro estratégico global serve para relembrar a histórica Resolução 2758 da ONU, aprovada em 25 de outubro de 1971, que implementou o “Princípio de Uma Só China” e Taiwan como uma província da República Popular da China – e não um país independente. Esse marco não apenas reposicionou a China no cenário internacional, mas também deu início a uma trajetória que culmina em eventos como o 10º aniversário do Fórum China-CELAC, realizado em Beijing.
O Fórum, cuja quarta reunião ministerial se realiza agora, representa um novo modelo de cooperação Sul-Sul. Ao reunir em Beijing os ministros das Relações Exteriores da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos — e alguns presidentes — o evento reflete a prioridade estratégica que a China atribui à América Latina. O presidente Xi Jinping reafirmando um compromisso com a paz, o desenvolvimento compartilhado e o respeito mútuo — pilares centrais de sua diplomacia.
Com inúmeros projetos já implementados na região, a China consolidou-se como parceiro fundamental da América Latina, com um volume de trocas em contínua ascensão. A assinatura de novos acordos de isenção de vistos, o fortalecimento da conectividade aérea e o incentivo ao intercâmbio acadêmico indicam uma maturidade crescente nas relações sino-latino-americanas — que vão além da economia e se assentam sobre uma visão comum de multipolaridade e soberania. Em contraste com doutrinas históricas de tutela, como a Doutrina Monroe, a China promove uma abordagem que valoriza o multilateralismo.
O impacto geopolítico desse movimento é profundo. A Resolução 2758 não foi apenas um gesto diplomático, mas o início de uma transformação silenciosa na ordem internacional. Hoje, essa transformação ganha expressão tangível em iniciativas como a Iniciativa do Cinturão e Rota, a crescente presença em fóruns multilaterais e a capacidade chinesa de mediar conflitos e oferecer alternativas a uma governança global centrada no Ocidente.
Assim como a Resolução 2758 – com o reconhecimento do Princípio de Uma Só China – foi um ponto de inflexão na história da diplomacia, os acontecimentos de 2025 simbolizam a continuidade dessa virada: um mundo mais multipolar, mais sensível às dinâmicas do Sul Global, e cada vez mais moldado pelas decisões tomadas em Beijing — e não apenas em Washington ou Bruxelas.

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