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COLUNA

As Bravatas de Trump

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Imagem: Reprodução / X / @politvidchannel
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Imagem: Reprodução / X / @politvidchannel
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 02/04/2025, às 10h46


As bravatas de Donald Trump não são simples manifestações impulsivas ou fruto de uma personalidade intempestiva — elas constituem uma estratégia deliberada, sistematizada e coerente com a lógica apresentada por ele em “The Art of the Deal”, publicado em 1987, que funciona como uma cartilha de negociação baseada em projeção de poder, controle da narrativa, uso calculado do exagero e imprevisibilidade como instrumento de dominação. Trump não negocia apenas com argumentos ou dados, mas com espetáculo, ambiguidade e tensão, forçando seus interlocutores a reagirem ao seu ritmo.

Durante seu primeiro mandato, essa lógica foi aplicada com vigor à política externa dos Estados Unidos. A atual tentativa de compra da Groenlândia, à primeira vista absurda, testa limites e constitui um gesto simbólico de poder expansionista. Ao questionar a legitimidade da entrega do Canal do Panamá ou sugerir revisão de antigos acordos, Trump mobiliza sentimentos nacionalistas e constrói uma narrativa de restauração da grandeza americana, ainda que descolada da viabilidade diplomática. Renomear o Golfo do México para Golfo da América é parte desse ritual de exuberância de poder.

Com o México, utilizou uma estratégia agressiva que se tornou um dos pilares de sua campanha: acusações, ameaças de tarifas, exigência de pagamento por um muro fronteiriço — tudo emoldurado pela lógica de transformar o outro em adversário e, ao mesmo tempo, objeto de chantagem simbólica. Mesmo o Canadá, parceiro tradicional, tem sido alvo de críticas e sanções tarifárias, como forma de renegociar os termos do NAFTA, substituído pelo USMCA em condições mais favoráveis aos interesses imediatos dos Estados Unidos. Ao chamar o Canadá de 51º estado norte-americano, Trump também reflete um pouco do coletivo de seu país, que sempre olha para o vizinho do norte com um certo desprezo.

No caso da China, a estratégia continua robusta: tarifas, retórica confrontacional, acusações de roubo de propriedade intelectual, manipulação cambial e até da criação do falso conceito de mudança climática. Mas a guerra comercial não tem somente um caráter punitivo — seu objetivo principal é atrair de volta os investimentos e fábricas para solo americano, na tentativa de revitalizar setores industriais tradicionais e reconstruir uma base de empregos domésticos. Trata-se de um protecionismo com roupagem negocial: as tarifas não visam apenas penalizar, mas reconfigurar a geografia produtiva global. Seu objetivo é “punir” os empresários norte-americanos, acostumados à mão-de-obra barata, a retornarem a produção aos Estados Unidos. E, com isto, também colocar os Estados Unidos, novamente, na posição de país inovador, uma posição perdida já há algum tempo para a China. Trump pretende, por meio das bravatas e algumas ações, reposicionar os Estados Unidos no centro das decisões empresariais.

Entretanto, Trump governa num contexto de declínio dos Estados Unidos. A hegemonia americana já não é incontestada. A ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS e o cansaço interno com guerras e intervenções tornaram o país mais introspectivo. A retórica inflamada de Trump procura preencher esse vácuo de confiança, mas ao mesmo tempo expõe as limitações de uma potência que já não dita as regras com a mesma autoridade. Suas ameaças, embora ruidosas, muitas vezes carecem de sustentabilidade prática — mas isso não as torna inofensivas.

No entanto, é importante ressaltar que o retorno de Trump à Casa Branca vem com um enorme desafio: seu segundo mandato é limitado pelo tempo, pois ele não poderá se reeleger. A 22ª Emenda da Constituição dos EUA proíbe mais de dois mandatos presidenciais para um indivíduo, e qualquer tentativa de alterá-la exigiria um consenso político e jurídico praticamente inalcancável. Os norte-americanos foram, neste sentido, sábios ao não permitir que o mesmo indivíduo retorne ao poder após os dois mandatos. Ainda assim, Trump incita rumores e sugestões sobre um possível terceiro mandato como forma de alimentar sua base, gerar comoção, e, mais importante, postergar a condição de “pato manco”, que costuma enfraquecer presidentes no segundo mandato. Para Trump, estender a ilusão de permanência indefinida é uma tática para manter autoridade e evitar que o poder comece a se dissolver prematuramente.

Diante dessa postura, os países precisam agir com inteligência estratégica. Reagir às bravatas com indignação moral ou tecnicismo frio é ineficaz. Trump prospera no desequilíbrio alheio. A resposta mais eficaz é manter firmeza serena, evitar confrontos diretos desnecessários, fortalecer alianças multilaterais e construir consensos que dificultem ações unilaterais. É crucial entender que, por trás da teatralidade, há objetivos concretos: Trump quer negócios, acordos, resultados que possa anunciar como vitórias e manter a aparência de força. O acordo com a Rússia na Guerra da Ucrânia deixa isto visível: a OTAN é fraca, mas os Estados Unidos continuam fortes.

Por fim, Trump é o reflexo de uma América em busca de si mesma, tentando manter sua centralidade num mundo que avança para a multipolaridade. Lidar com ele exige mais do que resistência: requer leitura precisa de seu teatro estratégico, capacidade de não cair nas armadilhas do ruído e habilidade para diferenciar forma de conteúdo. “The Art of the Deal” não é apenas um livro — é o roteiro de um personagem que insiste em transformar o poder em espetáculo e o espetáculo em instrumento de poder. Para lidar com Trump, é preciso compreender o script — e, sobretudo, não aceitar os papéis que ele tenta impor. Trump tenta restaurar a grandeza norte-americana dos anos 1950 na atual década de 2020.


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