
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 28/01/2026, às 09h02
A recente análise do Financial Times sobre a ascensão da direita na América Latina chama atenção para um fenômeno recorrente na história política da região: ciclos de alternância ideológica marcados mais pela rejeição ao passado do que pela construção consistente do futuro. Em diferentes países, movimentos conservadores e liberais retornam ao poder impulsionados pelo desgaste das forças progressistas, pela insegurança urbana, pela estagnação econômica e pela frustração social. No entanto, esse retorno raramente se traduz em projetos estruturantes e longevos de desenvolvimento.
O problema central da nova direita latino-americana não é eleitoral, mas intelectual. Falta-lhe um projeto próprio, enraizado na realidade regional, capaz de articular crescimento, inclusão social, soberania produtiva e inserção internacional estratégica. Em vez disso, recorre quase automaticamente a um receituário neoliberal importado, marcado por privatizações apressadas, austeridade fiscal rígida, desregulação seletiva e submissão aos interesses financeiros globais.
Essa orientação não é apenas econômica; é também cultural e política. A direita regional permanece profundamente dependente da matriz ideológica norte-americana, reproduzindo discursos, agendas e prioridades formuladas fora de seu contexto histórico e social. Trata-se de uma subserviência intelectual que limita a capacidade de pensar alternativas próprias e de responder criativamente aos desafios contemporâneos.
A consequência é previsível: governos que chegam ao poder prometendo eficiência, modernização e ruptura com o “velho sistema” acabam administrando crises com instrumentos ultrapassados. Falta-lhes uma visão de longo prazo para temas centrais como reindustrialização, transição energética, inovação tecnológica, integração regional, reforma do Estado e, principalmente, segurança. Governam para o mercado financeiro, mas não para a sociedade.
Mais grave ainda é a ausência de uma concepção estratégica de desenvolvimento. Enquanto países asiáticos combinaram abertura econômica com planejamento estatal, investimento em educação e política industrial, a direita latino-americana permanece presa à ilusão de que o mercado, por si só, resolverá problemas estruturais históricos. Essa crença ignora desigualdades profundas, fragilidades institucionais e dependências produtivas.
Outro traço recorrente é a fragilidade dos quadros dirigentes. Após décadas afastada do poder em diversos países, a direita raramente se preparou para governar. Não investiu na formação de lideranças técnicas, administrativas e diplomáticas capazes de gerir Estados complexos. Preferiu apostar em figuras midiáticas, outsiders ou líderes carismáticos, muitas vezes sem experiência institucional.
O resultado é um padrão cíclico: a direita emerge como promessa de renovação, vence eleições em contextos de crise, governa sem projeto consistente, frustra expectativas e rapidamente perde legitimidade. Surge como “chuva de verão”: intensa, ruidosa, mas passageira. Sem raízes profundas, dissolve-se ao primeiro choque econômico ou político.
Essa instabilidade também fragiliza a democracia. Governos sem base programática sólida tendem a recorrer à polarização, ao discurso moralista ou ao confronto institucional como forma de compensar a falta de resultados concretos. A política transforma-se em espetáculo, e não em instrumento de transformação.
O Financial Times aponta corretamente que a ascensão da direita está associada ao medo do crime, à insegurança social e ao desencanto com governos progressistas. Mas diagnosticar as causas não basta. O desafio real é compreender por que a direita, mesmo retornando ao poder, permanece incapaz de liderar projetos nacionais duradouros.
A resposta está na ausência de imaginação política. Falta-lhe a coragem de formular um modelo próprio de desenvolvimento para o século XXI, que combine responsabilidade fiscal com investimento social, abertura com proteção produtiva, integração global com autonomia estratégica. Falta-lhe, sobretudo, compreender que governar não é apenas administrar contas, mas construir futuro.
É lamentável que, após tantos anos na oposição, a direita latino-americana não tenha sido capaz de se organizar como força programática madura, com propostas sólidas, equipes qualificadas e visão histórica. Preferiu o atalho do discurso importado à difícil tarefa de pensar a região a partir de si mesma.
Enquanto isso não mudar, continuará a alternar momentos de euforia eleitoral com rápidas decepções governamentais. Continuará vencendo eleições sem vencer o desafio do desenvolvimento. Continuará ocupando o poder sem exercer liderança.
A América Latina não precisa de salvadores improvisados nem de modelos copiados. Precisa de projetos nacionais consistentes, capazes de articular crescimento, soberania e justiça social. Sem isso, a ascensão da direita seguirá sendo apenas mais um episódio transitório em uma história marcada por oportunidades desperdiçadas.

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