
por Marcelo Emerson
Publicado em 06/03/2025, às 08h16
Começo a coluna desta semana contando o teor de uma conversa que tive recentemente. Alguns amigos conversavam sobre os sonhos de criança sobre profissão. Estávamos concluindo que nenhum dos presentes trabalhava naquilo que sonhou quando criança.
De repente, um dos convidados arrematou: “Quando eu era criança eu sonhava em ser rico. Sou o único que cumpriu o objetivo da infância”.
Tenho que admitir que a partir dali eu permaneci apenas de corpo presente na conversa, pois minha mente ficou presa naquela fala: “O cara era criança que sonhava em ser um adulto rico”.
Bem, talvez o amigo que proferiu tal frase tenha passado por provações econômicas severas e, por isso, havia perdido a capacidade de sonhar com uma atividade profissional específica. Ele sabe o que ele quer: o dinheiro. Não importa o “como” ele vai obtê-lo.
Lembrei de uma explicação sobre a conexão entre as palavras profissão e vocação feita pelo monge beneditino alemão Anselm Grün: “A própria raiz de ambas as palavras mostra que existe uma íntima relação entre profissão e vocação. Você não deve simplesmente escolher uma profissão, mas a profissão para a qual você se sinta chamado. Em alemão, a palavra profissão (“Beruf”) vem de chamar (“rufen”). Originalmente significa: convocar alguém”.
Que estranha convocação que meu amigo recebeu em sua alma logo na infância: “seja rico, não importa como”.
Ainda nas palavras de Grün: “O emprego serve para ganhar dinheiro. Por outro lado, a profissão corresponde à minha vocação interior. Toda profissão tem a ver com vocação. Quem ama sua profissão, sente-se chamado a ela como operário, médico, terapeuta, enfermeira”.
Aquela frase do nosso amigo (“Eu sonhava em ser rico”) pode significar que ele não tem uma vocação que o leve a amar essa ou aquela profissão. Ele só ama o dinheiro.
Vivemos num mundo em que o resultado econômico valida qualquer meio. Como diz Hernandes Dias Lopes: “o desempenho sobrepuja o caráter. Muitos indivíduos, seduzidos pela fascinação das riquezas, transigem com seus valores, amordaçam a consciência e se curvam aos apelos do lucro ilícito”.
Que vazio existencial pode haver na alma de alguém que se limita a sonhar em ser rico, não importa como. Concluo esta coluna com as palavras de Lopes: “O dinheiro se tornou o mais poderoso senhor dos escravos da atualidade. Ele deixou de ser apenas uma moeda para transforma-se num ídolo. O dinheiro é Mamom, o deus mais adorado deste século. Milhões de pessoas se prostram em seu altar todos os dias e dedicam tempo, talentos, vida e devoção a esse deus”.
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