Como a nova onda de palestrantes da direita promove uma ruptura com os valores que definem a essência conservadora

por Marcelo Emerson
Publicado em 19/09/2024, às 08h32
Atualmente testemunhamos muitas pessoas que se denominam “de direita” no Brasil. Junto a isso, há palestrantes (“coaches”) à frente disso na política, revolucionando este espectro político.
A direita é tradicionalmente conservadora. O conservadorismo é necessariamente antirrevolucionário. O conservador é um reformista; nunca um revolucionário. Defensor da cultura tradicional e dos pilares fundamentais da sociedade civil, o conservador admite mudanças nas instituições sociais, porém, o faz por meio das reformas, não das revoluções.
Um alerta que cai bem ao conservador é aquele dito por Joaquim Nabuco em 1888: “A revolução é como Saturno, devora os próprios filhos”. Para um conservador, toda revolução descamba para algo pior daquilo contra o qual os revolucionários se debatiam.
É estranha a chegada dos “coaches” defendendo algo como a “libertação do animal que está em você” na direita. Contraditoriamente, seria algo mais próximo do que defendia Rousseau, uma das figuras mais detestadas pelos conservadores, especialmente por Edmund Burke, um dos pais dessa linha de pensamento político e filosófico.
Burke dizia que a apologia do estado da natureza, dos animais que habitam nela junto com o humano naturalmente (o “bom selvagem”), que não é corrompido pela vida na sociedade civil, seria um absurdo que poderia destruir os fundamentos da sociedade política. O irlandês se posicionou frontalmente contra a Revolução Francesa, escrevendo que os franceses haviam abolido a lei e a moral.
Hoje vivemos a moda da “revolução dos coaches”. Há um vídeo que mostra um “coach” exortando um rapaz a gritar de forma cada vez mais gutural e em volume cada vez mais alto, enquanto outras centenas de pessoas imitam igualmente a conduta, como num reflexo pavloviano. Outro vídeo, igualmente viral, traz outro “coach”, batendo os pés no chão com força, gritando palavras desconexas, algo como “uni ná, ruuu, u cajá”. Ele ruge imitando uma fera, se ajoelha, bate as mãos no chão e, ato contínuo, dezenas de pessoas num auditório gritam a plenos pulmões de forma ensandecida.
A contradição é escandalosa, pois confundem honra com bestialidade. Até uma mula tem um coice mais forte do que o soco de qualquer homem. Honra é exatamente algo ligado à ideia de civilização, que denota controle dos instintos e das pulsões emocionais. Tais palestrantes estão adestrando pessoas a se comportarem exatamente de modo contrário ao que se conhece como um ser humano civilizado. É mais um ciclo de bárbaros que atacam a civilização.
O conservador não transige com certos valores inscritos nas suas tradições, na moral e nos costumes que sustentam a vida em sociedade. Para um conservador, nem sempre os fins justificam os meios. No mesmo sentido, para um conservador nem tudo está à venda. Quando o deus dinheiro lhe oferece os reinos da Terra: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”, o conservador responde com convicção: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás”.
A libertação revolucionária do elemento bestial que existe no humano para o fim de buscar riquezas materiais a qualquer preço, abandonando a lei e a moral, pode ser tudo, menos de direita conservadora.
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