
por Kleber Carrilho
Publicado em 09/03/2024, às 06h49
Na dança geopolítica da América Latina, o Brasil, sob a presidência de Lula, enfrenta um dos seus maiores dilemas: a relação com a Venezuela. Nesta semana, sabendo a pressão que o aliado está sofrendo em todos os cantos, Nicolás Maduro prometeu abrir as eleições do meio do ano para observadores internacionais. Porém, mesmo com um aceno a alguns países preocupados com o tema, a sombra do autoritarismo permanece, o que continua a ameaçar a imagem do presidente brasileiro como líder comprometido com a democracia.
Então, Lula se vê em uma corda bamba. Por um lado, estão os laços diplomáticos, a estabilidade regional e a proximidade ideológica com o chavismo, que exigem uma abordagem cautelosa. Por outro, o compromisso com os direitos humanos e a democracia, que pedem uma posição firme contra todos os sinais de repressão que vêm do país vizinho.
E este desafio não é apenas um teste para Lula, mas para o Estado brasileiro no cenário internacional. Como o país vai se posicionar? Vai aceitar a promessa de Maduro como um avanço democrático ou vai exigir garantias concretas de liberdade e transparência no processo eleitoral?
Por tudo o que está acontecendo no mundo agora, e pelo desejo que o Brasil tem de conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, a resposta a essa questão é crucial. Mas, além do presidente, o Ministério dos Direitos Humanos e o Itamaraty têm papéis fundamentais nesse cenário, equilibrando as questões éticas com as necessidades diplomáticas.
O mundo observa, esperando ver se o Brasil vai escolher o caminho que uma parte dos países europeus e os EUA querem, de condenar a tendência de eleição de Maduro em eleições que na visão deles serão forjadas, ou continuar mantendo o que tem sido a posição dos governos à esquerda, que inclui Dilma Rousseff, mantendo as boas relações com o presidente venezuelano e fechando os olhos para as denúncias de desrespeito aos direitos humanos e à democracia liberal.
Também internamente, a situação na Venezuela é um teste para a liderança de Lula. Com pouca capacidade de comunicação das realizações do governo, as últimas falas sobre Israel apareceram na pesquisa da Quaest divulgada esta semana como um dos motivos para a dificuldade de aprovação do presidente. Será que a Venezuela não será mais um tema a atingir a imagem?
Afinal, Bolsonaro, quando foi presidente, usou a Venezuela como exemplo de como os “amigos de Lula” não tinham compromisso com a democracia, e com certeza o bolsonarismo vai voltar a apontar esta fragilidade em qualquer debate.
Então, qual será a saída? Equilibrando-se entre todos esses públicos, os internos e os externos, este é mais um desafio para o presidente resolver quase sozinho. Afinal, os ministros, que poderiam “comprar a briga” sobre o assunto na imprensa e nas discussões internacionais, preferem se esconder atrás do chefe.
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