Uma fábula antiga reflete a atualidade das tensões globais e a banalização do medo entre líderes mundiais

Kleber Carrilho Publicado em 05/07/2025, às 11h42
Conta-se que há muitos anos, numa aldeia muito distante, espalhou-se um boato de que uma montanha iria dar à luz. Os habitantes, curiosos e assustados, se reuniram em volta dela. Dias se passaram, o céu escureceu, raios e trovões aconteceram, a terra tremeu... até que, finalmente, com um estrondo, a montanha pariu: um rato. A história então ganhou o mundo como símbolo de promessas gigantescas que acabam em quase nada.
E essa fábula descreve com precisão o que vivemos nos últimos dias. Israel ataca o Irã. O Irã responde. Os Estados Unidos bombardeiam instalações militares do regime dos aiatolás. A imprensa grita: a Terceira Guerra Mundial começou. Especialistas projetam mapas, simulam consequências. Tudo parece pronto para o fim do mundo. Mas... a montanha pariu (mais uma vez) um rato.
Passados alguns dias, o que se vê é um silêncio constrangedor. As redes sociais voltaram a falar de reality shows, vulcões e futebol. O noticiário já prioriza a economia. E o “fim do mundo” sumiu das manchetes como se nunca tivesse existido.
Isso não significa que os riscos acabaram. Pelo contrário: estamos vivendo uma era de blefes nucleares, onde líderes poderosos jogam partidas de pôquer com a estabilidade global, usando tweets, entrevistas improvisadas e ataques pontuais como cartas na mesa. Só que, como toda aposta exagerada, esse jogo tem um limite. Um dia, um míssil não vai ser contido. Um ataque não vai ser simbólico. Um blefe vai deixar de ser blefe.
E talvez, nesse dia, estejamos tão anestesiados pelas ameaças que ninguém leve a sério, até que seja tarde demais.
A banalização da guerra é um dos fenômenos mais perigosos do nosso tempo. O Oriente Médio está em ebulição. A Ucrânia continua sangrando. A Ásia vive sob constante tensão entre China e Taiwan. E, enquanto isso, os líderes globais aprendem que provocar medo, mesmo que passageiro, rende manchete, mobiliza base eleitoral e reforça narrativas de força.
O problema é que, quanto mais vezes a montanha "ameaça parir", mais se perde o impacto do alerta. E, se um dia ela parir algo de fato catastrófico, pode ser que ninguém esteja prestando atenção. Vivemos entre farsas e tragédias.
O desafio é reconhecer quando uma se transforma na outra.
Kleber Carrilho é analista político, professor e pesquisador na Universidade de Helsinque, na Finlândia
Instagram | X: @KleberCarrilho
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