Se bem me lembro, o futebol se apresentou pela primeira vez pelo rádio de madeira que ficava nos fundos de casa. De lá chegavam os gritos que anunciavam

Redação Publicado em 01/06/2021, às 00h00 - Atualizado às 12h07
Se bem me lembro, o futebol se apresentou pela primeira vez pelo rádio de madeira que ficava nos fundos de casa. De lá chegavam os gritos que anunciavam alegria ou desgraça, sem meio-termo, como oráculo impiedoso que repousava perto do tanque e que parecia guinchar até quando desligado. Depois, o futebol também esteve presente no sempre genial e desde ontem imortal Januário de Oliveira, que jamais narrou um jogo sem emoção — porque ele mesmo era o espírito do jogo. “Taí o que você queria.” Estava lá o que todos nós queríamos.
Quando roubamos as redes do campinho vizinho, sempre muito bem penteado, e levamos para os nossos esburacados domínios e, bem mais tarde, passando de ônibus, quando dava pra ver outros piás balançando as mesmas redes, já esfarrapadas, existia ali insuspeitável futebol. Como há futebol no rugido sufocado da arquibancada sempre que nosso ponta-direita dispara rente à linha da lateral, o mais próximo de nós que pode chegar. Como havia futebol naquele um real que um gaiato tão colorado quanto nós nos pedia — e recebia — para entrar na Coréia do Beira-Rio, faltando exatamente três minutos para as nove da noite de uma quinta-feira de inverno.
O futebol está presente, sobretudo, na história oral de pais e avós que nos esgarçam jogadas, talentos e façanhas até os limites da possibilidade humana dos envolvidos. Tudo por uma boa causa. O Botafogo é o único time possível, até hoje sabemos. E o futebol também se encontra na realidade que posteriormente descobrimos, mas naquele momento já havíamos sido abduzidos pela narrativa, portanto depois passaríamos a perpetuar não o que descobrimos, mas apenas aquelas histórias que nos contaram, que eram muito mais bonitas. E depois de alguma vergonha grossa ou sabedoria eventual nos desabava a brutal evidência: quando vencemos, há futebol; quando perdemos, há muito mais. Afinal, o futebol, na maior parte do tempo, fala sobre apropriar-se das próprias derrotas. Cair não é o mesmo que continuar deitado.
O avô do futuro precisará se vestir de Cartola ou Rimbaud, pois toda poesia será necessária. Porque não há futebol quando uma bolha sanitária pretende se resguardar do resto da sociedade, quando os clubes se enfileiram para furar a fila da vacina e, sobretudo, quando o país se dispõe a sediar uma competição entre seleções no momento em que caminhamos para meio milhão de mortos — depois que a Colômbia recusou a Copa América devido à pandemia e à convulsão política; depois que a Argentina também disse que não, pois a demanda sanitária é mais urgente. É como se cavassem uma cova no meu campinho, enterrando as histórias, as redinhas e os chinelos e tudo mais.
Se toda partida realizada hoje no Brasil é um evento alienígena, se não há sequer a possibilidade de torcida no estádio, e esse desde sempre é o sinônimo perfeito do futebol, é porque um governo federal negligente gerenciou a crise sanitária de forma desastrosa, impedindo a vacinação em massa. Porque, vejam bem, o brasileiro pode até pular no esgoto que não acontece nada. 460 mil mortes. Nesse cenário, a realização da Copa América será o macabro cartão postal perfeitamente emoldurado para no futuro lembrar do período em que descobrimos um puxadinho no fundo do poço. No Brasil em que vivemos e sobrevivemos, também a própria ideia de futebol está sendo arrasada.

Footer blog Meia Encarnada Douglas Ceconello — Foto: Arte
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Fontes: Ge – Globo Esporte.

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