Fatores como a política monetária dos EUA, a balança comercial brasileira e o quadro fiscal do Brasil têm influenciado essa valorização

Sabrina Oliveira Publicado em 06/06/2024, às 11h45
Desde o início de 2024, o dólar tem mostrado uma trajetória de alta significativa, acumulando ganhos de mais de 9% até agora. A moeda norte-americana, que fechou a última sessão cotada a R$5,2971, compensa todas as perdas registradas em 2023. Diversos fatores têm influenciado essa valorização, incluindo a política monetária dos Estados Unidos, a balança comercial brasileira e o quadro fiscal do Brasil.
A política monetária dos EUA tem desempenhado um papel crucial na força do dólar ao longo de 2024. Mudanças nas sinalizações do Federal Reserve (Fed) sobre a condução dos juros nos Estados Unidos desde o início do ano têm mantido a moeda em alta. Sinais de um mercado de trabalho aquecido e de uma atividade econômica robusta têm adiado o início do ciclo de cortes de juros pelo Fed. Inicialmente, esperava-se que o corte de juros começasse em maio, mas agora a maioria do mercado acredita que isso só ocorrerá em setembro. Essa incerteza contribui para a valorização do dólar, visto como um porto seguro em momentos de instabilidade.
A balança comercial brasileira também impacta diretamente a cotação do dólar. No ano passado, a balança comercial brasileira alcançou um superávit recorde de mais de US$98 bilhões. No entanto, em 2024, as exportações de minério de ferro e petróleo têm diminuído devido à menor demanda externa. Quando as exportações são fortes, mais dólares entram no país, fazendo com que a moeda norte-americana perca valor. Por outro lado, quando as importações superam as exportações, mais dólares saem do país, elevando seu preço.
Além disso, o quadro fiscal do Brasil tem gerado preocupação entre os economistas. Em abril, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, revisou a projeção fiscal do Brasil, mudando a previsão de superávit para um déficit zero em 2025. Essa mudança indica um aumento nos gastos do governo, mesmo diante das dificuldades em aumentar as receitas. O mercado interpretou essa alteração como um sinal de uma postura fiscal menos austera, contribuindo para a desvalorização do real.
Outro fator que influencia a cotação do dólar é a incerteza em torno da transição na liderança do Banco Central do Brasil. Com o mandato do atual presidente, Roberto Campos Neto, terminando no final de 2024, surgem dúvidas sobre a abordagem da nova gestão em relação à política de juros. Dois nomes são cotados para assumir o cargo: Gabriel Galípolo e Paulo Pichetti, ambos conhecidos por uma postura mais favorável a cortes de juros, o que poderia diminuir a atratividade do real para investidores estrangeiros.
No curto prazo, especialistas veem pouca margem para uma mudança significativa no cenário. A expectativa é que o Fed mantenha as taxas de juros inalteradas nos próximos meses e que a balança comercial brasileira continue enfraquecida. A variação negativa dos preços das commodities e a menor demanda internacional também devem continuar pressionando a valorização do dólar em relação ao real.
Para Matheus Pizzani, economista da CM Capital, a tendência é que o Fed mantenha as taxas de juros elevadas no próximo trimestre, enquanto a balança comercial brasileira não deve apresentar grande recuperação. Marco Caruso, economista-chefe do PicPay, aponta que a deterioração dos termos de troca do Brasil e a perspectiva de um crescimento global mais fraco na segunda metade do ano também contribuirão para a desvalorização do real.
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