
Marcelo Arbex Publicado em 24/02/2024, às 04h47
A democracia liberal está doente e em estado grave, um quadro confirmado em dois momentos distintos em 2016. O primeiro com a saída do Reino Unido da União Europeia, com o Brexit, e depois com a vitória à presidência dos EUA de Donald Trump com uma retórica divisionista típica dos líderes populistas. Em tempos recentes o populismo vem ganhando um espaço cada vez maior e, inflamado pelas mídias sociais, parece estar se tornando o novo mainstream político.
E é justamente uma de suas principais características, a retórica do “nós” contra “eles”, o ingrediente que faz com que a polarização política ganhe impulso e força. Com ela pessoas que se viam excluídas do sistema político passam a se ver representadas, legitimando uma sensação de pertencimento há muito não vista. E as constantes guerras culturais travadas por visões de mundo antagônicas contribuem para fazer ferver o caldeirão populista-polarizador.
É nas disputas eleitorais que os confrontos conservadores versus progressistas ganham maior força e evidência. E diferentemente da prática democrática, onde o ponto e contraponto é parte saudável do debate, num ambiente extremamente polarizado só o que cresce é a radicalização das ideias e a intolerância com todo aquele que pensa diferente.
Esse é um fenômeno global, crescente e preocupante, pois ao transbordar o universo político e atingir outros setores da sociedade faz com que visões individuais de mundo tentem prevalecer sobre a promoção do bem comum, como o combate à inflação ou a pobreza.
O senso de pertencimento a um determinado campo ideológico costuma adquirir um tom bélico e agressivo, e a radicalização exacerbada acaba por interferir em todos os aspectos da vida - a cultura, o esporte, o consumo, a educação, as relações familiares e de trabalho. Ao acirrar as emoções, a polarização é o elixir do sucesso nas redes sociais, ao acentuar o que cada grupo quer ouvir e o que os políticos lacradores querem falar, incluindo mentiras e fake news. É o narcisismo dos novos tempos, onde tudo é válido para manter sua bolha inflamada. Porém, esse é um jogo de perde-perde.
A falta de diálogo e a intolerância só dificultam a busca por consensos e soluções eficazes tão necessárias nos dias de hoje. Para reverter esse quadro precisamos todos fazer o nosso papel entendendo que, antes de mais nada, somos parte de um sistema democrático que escolhe seus líderes de forma livre e soberana, e reconhecendo que isoladamente não vamos chegar a lugar nenhum.
Aos políticos cabe o papel crucial de dar o exemplo, promovendo o diálogo com respeito mútuo e aberto a diferentes pontos de vista. E precisamos com urgência ver surgir uma nova geração de políticos dispostos a inovar e trabalhar de forma democrática e desarmada, para buscar os avanços que tanto necessitamos e nos livrarmos da nefasta armadilha da polarização. Aceita-se candidatos.
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