
por Agenor Duque
Publicado em 03/11/2025, às 08h06
Os Estados Unidos, a nação que muitos enxergam como símbolo de estabilidade e força econômica, enfrentam agora uma crise silenciosa que atinge os céus do país. Mais de 60 mil profissionais responsáveis pela segurança aérea estão sem receber salários por causa da paralisação do governo federal, que já ultrapassa três semanas e não mostra sinais de resolução.
Agentes da Administração de Segurança nos Transportes (TSA) e controladores da Administração Federal de Aviação (FAA), que mantêm o tráfego aéreo seguro, trabalham sem remuneração efetiva, dependendo de economias, cartões de crédito e até de empregos temporários para sobreviver.
Alguns receberam menos da metade do salário. Outros, valores simbólicos, de poucos dólares.
“Há colegas dizendo: ‘Saio do aeroporto e vou dirigir Uber, preciso colocar comida em casa’”, revelou Neal Gosman, representante sindical da TSA em Minnesota.
Em Dallas-Fort Worth, um agente identificado apenas como “M.” contou ter feito um empréstimo de US$ 3 000 para pagar aluguel e prestações do carro. “Não dá mais para segurar. O empréstimo é a única saída”, desabafou.
A situação chegou a um ponto em que bancos de alimentos e companhias aéreas estão distribuindo cestas básicas e refeições a trabalhadores que continuam de plantão, mesmo sem pagamento. Em aeroportos como Newark, Denver, Los Angeles e Dallas, caixas com alimentos, café e lanches são entregues diariamente a esses profissionais. Companhias como United Airlines e Delta Air Lines se uniram à mobilização solidária. “Estamos vendo profissionais que garantem a segurança nacional fazendo fila para pegar mantimentos”, relatou um voluntário.
Segundo a FAA, quase metade dos 30 maiores aeroportos dos Estados Unidos enfrenta escassez de controladores de tráfego aéreo, resultando em atrasos e cancelamentos em série. Os chamados “Misery Maps” já mostram um congestionamento crescente em rotas entre Los Angeles, Chicago, Nova York e Atlanta, afetando o coração do sistema aéreo norte-americano.
No Congresso, o impasse político continua. Republicanos aliados de Donald Trump têm maioria, mas precisam de votos democratas para aprovar o orçamento. Os democratas, por sua vez, exigem a manutenção dos subsídios de saúde do Affordable Care Act. O jogo político se arrasta, enquanto milhares de trabalhadores essenciais seguem sem receber.
A imagem dos Estados Unidos como potência intocável começa a dar lugar a uma realidade que o mundo inteiro observa com surpresa. O país que tantas vezes socorreu outras nações agora enfrenta uma crise que atinge seus próprios alicerces.
“É frustrante”, disse um agente em Ohio. “Somos peças de xadrez, e quem perde a partida é quem trabalha.”
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