
por Agenor Duque
Publicado em 30/01/2026, às 08h00
O mercado financeiro brasileiro voltou ao centro do radar internacional. Em janeiro, mais de US$ 2,3 bilhões em capital estrangeiro ingressaram na Bolsa brasileira, no maior fluxo mensal desde o fim de 2023. O impacto foi imediato. O Ibovespa subiu quase 10% em dólar em poucos dias, colocando o Brasil entre as melhores performances do mercado global.
A questão que divide gestores, analistas e investidores é simples e incômoda: os estrangeiros estão comprando uma barganha histórica ou apenas assumindo um risco que o investidor local evita?
O principal argumento por trás do apetite estrangeiro é o preço. A Bolsa brasileira está barata. Indicadores de valuation, como o preço sobre lucro, apontam que o mercado opera em níveis comparáveis aos de grandes crises globais. Em termos relativos, as ações brasileiras estão mais descontadas do que durante a crise do subprime de 2008, o que reforça a tese de oportunidade para fundos internacionais.
Mas o desconto também levanta alertas. Preço baixo raramente aparece sem razão. Para parte do mercado, o patamar atual reflete incertezas fiscais, ruídos políticos e um histórico recente de crescimento econômico limitado. Não por acaso, o investidor brasileiro segue cauteloso e ainda mantém distância da renda variável.
Outro fator decisivo está fora do país. A preocupação com o futuro da economia dos Estados Unidos tem levado grandes gestores a reduzir exposição a ativos americanos e buscar alternativas em mercados emergentes. Nesse movimento de rotação global, o Brasil aparece como um dos destinos mais líquidos e subavaliados.
Há também uma aposta no calendário monetário. Com juros ainda elevados, mas com expectativa de cortes a partir de 2026, investidores estrangeiros antecipam posições apostando em uma futura reprecificação dos ativos. Esse tipo de estratégia já gerou grandes ganhos no passado, mas também correções quando as expectativas não se confirmaram.
O possível início de um novo ciclo de commodities também entra na conta. Com cerca de 30% do PIB ligado ao setor, o Brasil pode se beneficiar caso a alta das matérias-primas se consolide.
O fato mais sensível é a divergência entre o capital estrangeiro e o investidor local. Enquanto os gringos compram, o brasileiro observa com desconfiança, levantando a hipótese de que o rali atual seja mais fluxo do que convicção.
O mercado já viu esse filme. Nem toda barganha se confirma. Nem todo risco é insensato. O Brasil volta a ser a bola da vez. O tempo dirá se esta é uma janela real de valorização ou apenas mais um ciclo de entusiasmo passageiro.
Agenor Duque
O Diário de São Paulo
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