
Adriana Galvão Publicado em 14/05/2024, às 05h00
Muita coisa tem sido dita e escrita sobre a tragédia social, humana e econômica que, por razões climáticas, acomete o Rio Grande do Sul. O que mais se ouve e lê é: não é hora de apontar culpados, mas de socorrer as vítimas e, depois, providenciar meios de reconstruir todas as estruturas urbanas destruídas.
É claro que a urgência urgentíssima é o salvamento das pessoas ilhadas, que perderam a casa, que não têm meios de obter água ou comida. Igualmente urgente é localizar corpos sob escombros e áreas alagadas. Por óbvio não se deve usar tamanho desastre como peça de discursos político-eleitorais, mas convenhamos: descaso e má-gestão pública que tenham contribuído para o caos precisam ter seus responsáveis identificados, e no curto prazo.
Já se sabe que a Prefeitura de Porto Alegre não aplicou nenhum centavo do orçamento de 2023 destinado a ações preventivas contra enchentes. Diques e comportas da capital gaúcha estavam sem manutenção. Em 2019, a legislação ambiental foi afrouxada por empenho do Governo do Estado - reduziu-se a proteção de rios e nascentes com a liberação do corte de árvores nativas, entre outras medidas.
Não. O governador e o prefeito não são “os” responsáveis pela tragédia, mas são dois deles. A principal responsável é a fúria da natureza. Logo atrás dela vêm todos aqueles que, encastelados em seus gabinetes na administração pública, não tratam as medidas de preservação ambiental como prioritárias e não dão a mínima para uma tal de “mudança climática” e um certo “aquecimento global”.
Nenhum candidato a cargo majoritário, na História do Brasil, tratou a questão climática com a devida ênfase. Nunca se propôs, nos demagógicos discursos eleitorais, salvo raras exceções, algo de concreto e factível que contribuísse para atenuar o ritmo do aquecimento global. Reduzir o desmatamento, como tenta fazer o atual Governo Federal, é pouco.
Tragédias como a do Rio Grande do Sul, registre-se, são anunciadas pela meteorologia. Os alertas soaram na região no ano passado e o que se viu desde então foi a passividade oficial. Como resultado, no momento em que este artigo era escrito contavam-se uma centena de pessoas mortas, 128 desaparecidas e 372 feridas, além de 163 mil desalojadas, números que cresciam a cada minuto. A quem afirmar que nada seria suficiente para evitar a tragédia, diante do volume inédito de água que desabou dos céus, nossa resposta será: se uma só vida dentre tantas fosse salva, o esforço já teria valido a pena.
Enquanto Governo Federal, Governo do Estado, Parlamento e prefeituras tomam iniciativas de praxe para socorrer a população, como a liberação de recursos de modo livre de amarras fiscais, abertura de linhas de crédito especiais, adiamento do pagamento de dívidas e deslocamento de contingentes militares para ações de resgate, cidadãos desprendidos dão emocionantes demonstrações de solidariedade, alguns pondo a própria vida em risco para ajudar as vítimas - sinal de que a humanidade ainda não se extinguiu.
Do lado obscurantista, porém, vêm as atitudes mais assustadoras no presente contexto. Há quem esteja forjando e disseminando fake news em prejuízo do socorro à população gaúcha. Como é possível tamanha desumanidade? Incautos depararam-se na internet - sempre ela - com “notícias” como a cobrança de imposto sobre as doações em dinheiro, multas sobre os veículos de salvamento, recolhimento de barcos e jet skis de quem não tenha habilitação para pilotá-los, fiscalização das marmitas enviadas em doação e outros absurdos.
A quem interessa penalizar ainda mais a população do Rio Grande do Sul? E com que finalidade?
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