Justiça determina que morte de PM em São Paulo seja tratada como feminicídio; marido passa a ser investigado

Caso inicialmente apurado como suicídio mudou de curso após novo laudo apontar lesões no rosto e no pescoço da vítima

Gisele Alves Santana e o marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto - Imagem: Reprodução

Lívia Gennari Publicado em 11/03/2026, às 11h05

A morte da policial militar Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça dentro do apartamento onde morava, em São Paulo, passou a ser investigada como feminicídio.

A mudança na linha de apuração ocorreu após decisão da Justiça paulista, que determinou que o caso seja tratado sob essa hipótese, ampliando o escopo das investigações. Agora, o marido da vítima, tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, passa a ser investigado oficialmente.

Quando o caso veio à tona, em 18 de fevereiro, a ocorrência foi registrada como suicídio. A família da policial, no entanto, contestou essa versão desde o início. Com a reavaliação das circunstâncias da morte e a realização de um novo exame necroscópico, feito após a exumação do corpo, o inquérito passou primeiro a tratar o episódio como morte suspeita. Agora, a investigação considera a possibilidade de feminicídio, crime cuja pena pode chegar a 40 anos de prisão.

De acordo com o novo laudo pericial, foram identificadas lesões no rosto e no pescoço de Gisele. Os especialistas também apontaram indícios de que ela teria desmaiado antes de ser atingida pelo disparo na cabeça e que não houve sinais de reação ou tentativa de defesa.

No dia da ocorrência, o tenente-coronel estava no apartamento do casal e foi quem acionou o resgate. Na ligação para a Polícia Militar, ele afirmou que a esposa havia tirado a própria vida. “Minha esposa é policial feminina. Ela se matou com um tiro na cabeça. Manda o resgate e uma viatura aqui agora, por favor”, disse em ligação. 

Depoimentos apontam inconsistências

Relatos de socorristas que atenderam a ocorrência, porém, levantaram dúvidas sobre a cena encontrada no imóvel. Um dos profissionais afirmou que a arma estava posicionada na mão da vítima de forma incomum para casos de suicídio. Diante da estranheza, ele decidiu fotografar o local. O socorrista também relatou que o sangue já estava coagulado quando a equipe chegou e que não havia cartucho de munição no apartamento.

Imagem: Reprodução

 

Outro ponto citado pelos bombeiros diz respeito à versão apresentada pelo marido da policial. Em depoimento, o oficial afirmou que estava no banho no momento em que ouviu o disparo. No entanto, os primeiros bombeiros que entraram no apartamento disseram que ele estava seco e que não havia sinais de água ou umidade no chão do imóvel.

O comportamento do tenente-coronel também chamou a atenção dos socorristas. Segundo um sargento do Corpo de Bombeiros, não foram observadas manifestações de desespero ou choro por parte dele durante o atendimento, pelo contrário o socorrista afirmou que Geraldo "falava calmamente". 

Além dessas inconsistências, imagens de uma câmera de segurança registraram a entrada e a saída de três policiais no apartamento cerca de dez horas após a ocorrência. De acordo com uma testemunha, as agentes teriam ido ao local para realizar a limpeza do imóvel.

As gravações mostram que elas permaneceram no interior do apartamento por aproximadamente 50 minutos e deixaram o prédio sem carregar objetos. As três policiais devem prestar depoimento no inquérito conduzido pela Polícia Civil, que busca esclarecer o que aconteceu nas horas seguintes à morte da PM.

A defesa de Geraldo Leite Rosa Neto informou que ainda não teve acesso ao novo laudo necroscópico e aguarda a inclusão dos documentos no processo. Os advogados também criticaram o vazamento de vídeos e relatórios da investigação e ressaltaram que não há, até o momento, decreto de prisão contra o oficial.

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