Um detalhe observado por um bombeiro com 15 anos de experiência pode mudar os rumos da investigação sobre a morte da policial militar Gisele Alves, baleada na cabeça dentro de um apartamento no Brás, em São Paulo

William Oliveira Publicado em 09/03/2026, às 10h07 - Atualizado às 10h51
O depoimento de um dos bombeiros que atenderam a ocorrência levantou dúvidas sobre o que aconteceu no apartamento onde a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, morreu após ser baleada na cabeça no bairro do Brás, região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro.
O primeiro pedido de socorro foi feito pelo marido da policial, o tenente-coronel da PM Geraldo Neto. Em uma ligação para a corporação, ele afirmou que a esposa havia atirado contra a própria cabeça.
“Alô. É o tenente-coronel Neto, estou no Brás. A minha esposa é policial feminina, ela se matou com um tiro na cabeça. Manda um resgate, uma viatura aqui agora, por favor”, disse.
Pouco depois, ele também acionou o Corpo de Bombeiros e afirmou que Gisele ainda estava viva. “A minha esposa se matou com um tiro na cabeça. Ela ainda está viva, ela está respirando”, declarou.
Imagens de câmeras de segurança do corredor do prédio mostram parte da movimentação naquela manhã. Às 8h02, o tenente-coronel aparece sem camisa falando ao telefone. Três minutos depois, às 8h05, ele surge novamente fazendo outra ligação. Às 8h13, três bombeiros chegam ao local.
Durante o atendimento, o oficial relatou que estava casado com Gisele havia dois anos e que o relacionamento enfrentava crises nos últimos meses. Segundo ele, os dois discutiram na noite anterior.
“De seis meses para cá, a gente começou a ter muita crise”, afirmou. Em outro momento, disse: “O jeito que a gente está vivendo não compensa. Eu estou gastando aí sete mil por mês para viver com dois estranhos. Eu quero me me separar.”
Geraldo Neto também contou como teria encontrado a esposa após ouvir o disparo. Segundo ele, estava no banho quando escutou um barulho. “Fazia um minuto que eu estava debaixo do chuveiro quando escutei o barulho. Achei que fosse ela batendo a porta. Quando abri o box, ela estava caída no chão, no sangue. Ela deu um tiro na cabeça”, relatou.
Os socorristas conseguiram reanimar a policial ainda no apartamento. Às 8h55, Gisele foi retirada do prédio em uma maca e levada ao hospital ainda com vida.
No entanto, detalhes observados pela equipe de resgate levantaram dúvidas sobre a cena encontrada no local. Um dos bombeiros, com 15 anos de experiência, afirmou em depoimento que estranhou a posição da arma na mão da policial. Segundo ele, o armamento estava “bem encaixado” na mão de Gisele, algo que, de acordo com o socorrista, não costuma ocorrer em casos de suicídio.
Outros pontos também chamaram a atenção da equipe: o sangue já estava coagulado, o cartucho da bala não foi encontrado e, apesar de o marido afirmar que estava no banho no momento do disparo, ele estava seco e não havia água no chão do apartamento.
De acordo com policiais militares que participaram da ocorrência, o tenente-coronel também voltou ao apartamento após o atendimento inicial com forte cheiro de produto químico. Testemunhas afirmaram que ele entrou novamente no imóvel mesmo após ter sido orientado a não fazer isso.

Laudos da Polícia Técnico-Científica apontam que a cena do crime não foi preservada corretamente, o que impediu os peritos de determinar com precisão a dinâmica do disparo e quem efetuou o tiro. Um vídeo gravado após a saída dos socorristas mostra o apartamento com móveis fora do lugar, panos e produtos de limpeza espalhados pelo chão.
Outro ponto investigado é a diferença no horário do disparo. Uma vizinha afirmou em depoimento que acordou às 7h28 com um estampido forte. Já a primeira ligação de Geraldo Neto pedindo socorro foi feita apenas às 7h57, cerca de 29 minutos depois.
Entre os contatos feitos pelo tenente-coronel naquela manhã, um também chamou a atenção da família da vítima: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O magistrado chegou ao prédio às 9h07 e subiu até o apartamento com o oficial. Às 9h18, ele reaparece no corredor, e às 9h29 Geraldo Neto surge novamente com outra roupa.
A família de Gisele questiona a presença do desembargador no local. Segundo o advogado dos familiares, José Miguel da Silva Junior, o magistrado teria sido uma das primeiras pessoas acionadas após o disparo.
Em nota, a defesa de Geraldo Neto afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo e que, desde o início, tem colaborado com as autoridades. Já a defesa do desembargador informou que ele foi ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia.
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