INVESTIGAÇÃO

Após dois meses do assassinato de Ruy Ferraz Fontes, MP detalha trama do PCC; entenda o que motivou a execução

Denúncia do Gaeco aponta que facção planejava o crime desde 2019 e reuniu oito suspeitos em uma operação complexa com monitoramento, imóveis de apoio e armas de alto calibre

Delegado foi morto a tiros em uma emboscada no litoral - Imagem: Reprodução

Lívia Gennari Publicado em 24/11/2025, às 08h00

O Ministério Público de São Paulo apresentou, na última sexta-feira (21), a denúncia que atribui à cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC) a ordem para o assassinar o ex-delegado-geral da Polícia Civil Ruy Ferraz Fontes, executado em setembro na Praia Grande, litoral paulista. Segundo o documento, elaborado pelo Gaeco, a morte foi motivada por décadas de atuação do policial no enfrentamento direto à facção.

O MP denunciou oito homens por participação no ataque. Eles devem responder por integrar organização criminosa armada, homicídio qualificado (consumado e tentado), porte de armas de uso restrito e favorecimento pessoal.

Quem são os acusados:

Investigação

De acordo com a investigação, a ordem para matar o ex-delegado partiu da chamada “sintonia geral”, núcleo mais elevado do PCC. A facção, segundo o Gaeco, já planejava o atentado desde 2019. Uma carta manuscrita encontrada naquele ano, apreendida em operação policial, citava nominalmente Ruy entre os alvos cuja morte era “cobrada” pela liderança criminosa.

Embora houvesse a hipótese de que o crime pudesse estar ligado à atuação de Ruy como secretário municipal em Praia Grande, o MP descartou qualquer motivação política ou administrativa. Para os promotores, o atentado foi uma retaliação direta ao trabalho policial exercido ao longo de sua carreira.

A logística do crime

A denúncia revela que o crime foi preparado com meses de antecedência. O grupo monitorou a rotina do delegado, mapeou seus deslocamentos e constituiu uma cadeia de apoio que incluía imóveis no litoral e na capital, veículos de fuga e armas de alto calibre. Imagens de câmeras de segurança de alguns imóveis foram desligadas para dificultar a investigação.

Marcos Augusto Rodrigues Cardoso, o “Fiel”, é apontado como peça-chave na articulação: além de integrar o PCC, exercia a função de “disciplina” no Grajaú, zona sul de São Paulo, e teria sido responsável por recrutar os demais envolvidos.

De acordo com o DHPP, mais de 20 disparos de fuzis calibre 7,62 e 5.56 foram efetuados contra o carro em que estava o ex-delegado. Doze projéteis foram recuperados, a maioria no dorso esquerdo da vítima. O ataque ocorreu em via pública e em horário de movimento, o que, segundo o MP, ampliou o risco a outras pessoas e agravou as acusações.

Apesar de ter passado pela administração pública, pessoas próximas afirmaram aos investigadores que Ruy não acreditava ser alvo do PCC: dizia que Marcola o respeitava e que seus maiores receios vinham de questões administrativas e de disputas em licitações municipais.

O Ministério Público informou que ainda há diligências em andamento para identificar outros possíveis envolvidos. O caso agora aguarda decisão da Justiça sobre o recebimento da denúncia e o prosseguimento da ação penal.

Quem foi Ruy Ferraz Fontes?

Ruy Ferraz Fontes dedicou mais de 40 anos à Polícia Civil, ingressando na corporação no início dos anos 1980 e atuando em unidades estratégicas como Denarc, Dope e Deic.

No começo dos anos 2000, foi um dos primeiros investigadores a divulgar organogramas que detalhavam a estrutura interna do PCC. Em 2006, ordenou o indiciamento da cúpula, incluindo Marcos Camacho, o Marcola, considerado o líder da facção.

PCC ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA PRAIA GRANDE Investigação Ministério Público GAECO Ruy Ferraz Fontes

Leia também