Zona Oeste

Ação policial em escola do Butantã ganha novo capítulo após fala de funcionária

Relatos apontam que policiais permaneceram mais de uma hora na escola da Zona Oeste de São Paulo após pai acusar aula de “religião africana”

- Imagem: Reprodução / Google Street View

Marina Milani Publicado em 18/11/2025, às 18h20

A funcionária da EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste de São Paulo, relatou ter sido prensada contra a parede e ter uma arma encostada em seu corpo por um policial militar durante a ação que levou 12 PMs armados à unidade infantil na última terça-feira (11). Testemunhas disseram que o agente gritou diversas vezes e manteve a arma tocando nela durante toda a abordagem, que teria durado cerca de 20 minutos. Segundo a profissional, os policiais permaneceram dentro da escola por mais de uma hora, na presença de mães e pais.

A ocorrência começou após o pai de uma aluna acionar a Polícia Militar afirmando que a filha estaria sendo obrigada a participar de uma suposta “aula de religião africana”. A denúncia foi motivada por um desenho contendo o nome “Iansã”, divindade associada aos ventos e tempestades e que, no sincretismo religioso, se relaciona à figura de Santa Bárbara.

A funcionária, que preferiu não se identificar, afirmou que o episódio provocou constrangimento e medo entre funcionários e familiares. O relato foi formalizado em um documento assinado no dia seguinte ao ocorrido.

A Secretaria da Segurança Pública informou que a Polícia Militar abriu apuração sobre a conduta da equipe envolvida, com análise das imagens das câmeras corporais. Até a última atualização, a SSP não havia comentado o novo depoimento sobre a suposta arma encostada no corpo da funcionária.

Comunidade reage e denuncia racismo

A equipe escolar afirma que explicou aos policiais que o trabalho fazia parte do currículo antirracista, documento oficial da rede municipal que estabelece o ensino da cultura afro-brasileira desde os primeiros anos da educação básica.

A jornalista Ana Aragão, representante da Rede Butantã, declarou que quem assediou a funcionária foi o comandante responsável pela área. Ela ressaltou que o pai da estudante rasgou desenhos feitos pelas crianças no mural da escola, atitude que causou forte indignação entre moradores e educadores.

A Rede Butantã organizou um abaixo-assinado em defesa da escola, que reúne assinaturas de moradores e instituições da região. No documento, a comunidade expressa “integral e irrestrito apoio” aos profissionais e manifesta “profunda preocupação e indignação” com o episódio.

Os moradores afirmam que os policiais orientaram de forma errônea e racista ao sugerir que as atividades eram inadequadas. O texto reforça que a EMEI cumpre seu papel legal ao promover diversidade cultural e formação cidadã. O documento repudia qualquer ato de intolerância religiosa e racismo e defende o direito das crianças a uma educação plural e inclusiva.

O abaixo-assinado pede cinco medidas imediatas das autoridades, entre elas a investigação e responsabilização do pai que danificou os materiais, apuração rigorosa da conduta policial por suposto abuso de autoridade e ações de formação sobre diversidade e combate ao racismo voltadas ao pai e aos agentes públicos envolvidos.

A funcionária que diz ter sido coagida afirmou que toda a ação foi registrada pelas câmeras internas da escola, e que as imagens já estão disponíveis às autoridades.

O que diz a Secretaria Municipal da Educação

Em nota, a Secretaria Municipal da Educação afirmou que o pai da aluna recebeu esclarecimentos de que o desenho fazia parte de uma produção coletiva da turma, dentro das propostas pedagógicas previstas no Currículo da Cidade de São Paulo, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas da rede.

A pasta não comentou a atuação dos policiais militares dentro da EMEI.

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