Crise Humanitária

Após cortes do governo americano, ONGs brasileiras ficam em situação crítica

Sem financiamento internacional, projetos podem fechar em 2026 e milhares de refugiados ficam à espera de atendimento

A decisão dos EUA de cortar ajuda internacional gera crise sem precedentes para organizações que atendem refugiados e imigrantes no Brasil - Imagem: Reprodução/X @Bricktop_NAFO

Gabriela Nogueira Publicado em 06/12/2025, às 08h19

A rede de apoio humanitário no Brasil enfrenta um dos momentos mais críticos de sua história. A decisão dos Estados Unidos de não renovar contratos internacionais de ajuda, somada a cortes orçamentários em iniciativas globais, desencadeou uma crise que já compromete o funcionamento de organizações essenciais no atendimento a refugiados, imigrantes e populações vulneráveis.

Entre as instituições mais afetadas está a Cáritas, entidade com quase cinco décadas de atuação no país. Funcionários têm trabalhado sem salário e projetos fundamentais foram interrompidos após a redução drástica dos repasses feitos pelo Acnur, influenciada pelo corte de mais de 25% no orçamento global da agência da ONU. A justificativa envolve o enxugamento promovido pela USAid desde o governo Trump e a retração de recursos de países europeus.

Segundo Aline Thuller, coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas no Rio de Janeiro, a situação é inédita. Ela destaca que, em seus 18 anos de trabalho na área, nunca presenciou tamanha insegurança financeira. Entre os programas afetados está um serviço emergencial de apoio a imigrantes, além do atraso no início de cursos gratuitos de português e demissões em série.

O impacto humanitário é profundo. O Acnur estima que cerca de 270 mil pessoas no Brasil necessitam atualmente de algum tipo de assistência, ao mesmo tempo em que o número de deslocados forçados no mundo chega a 120 milhões. “Estamos vivendo uma crise de responsabilidade, não apenas uma crise de financiamento”, afirma Pablo Mattos, oficial de Relações Governamentais do Acnur no Brasil.

A crise também atinge iniciativas de apoio a públicos específicos. A Casa 1, instituição que desde 2017 acolhe pessoas LGBTQIA+ e oferece atividades socioeducativas a moradores da região central de São Paulo, anunciou que pode encerrar suas atividades em abril de 2026. Para o diretor institucional Iran Giusti, o fim da Casa 1 representaria a perda de um espaço fundamental para indivíduos que enfrentam violência, discriminação e risco elevado de desabrigo. “Qualquer pessoa pode perder suas redes de apoio se não houver políticas e projetos que amparem essa população”, afirma.

Imigrantes que passaram pela Cáritas lamentam o desmonte do apoio oferecido pela organização. Idrissa Deme, que chegou ao Brasil em 2013 por meio de um convênio educacional com Burkina Faso, lembra que encontrou na instituição acolhimento e orientação para se estabelecer no país. Para ele, o enfraquecimento dessas redes pode deixar recém-chegados completamente desassistidos.

Os cortes implementados por países ocidentais, especialmente pelos Estados Unidos desde 2020, redirecionaram verbas antes destinadas a programas humanitários para gastos militares e ações emergenciais decorrentes de conflitos internacionais, como a guerra na Ucrânia. O resultado é sentido em diversas partes do mundo — e, no Brasil, ameaça diretamente projetos que atuam como a única fonte de acolhimento para milhares de pessoas.

Enquanto organizações tentam reorganizar estruturas com recursos cada vez mais escassos, lideranças do setor alertam que, sem uma retomada da cooperação internacional ou políticas internas de apoio, parte significativa da rede humanitária brasileira pode simplesmente desaparecer.

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