Mara Machado Publicado em 09/05/2025, às 10h22
A grande maioria das mortes relacionadas ao parto poderia ser evitada com pré-natal adequado e bom suporte na atenção primária à saúde. Fatores como síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações do aborto, que representam 66% das mortes maternas, contam com estratégias preventivas e terapêuticas eficientes.
Neste mês, em que é celebrado o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna no Brasil, é preciso ampliar a conscientização para a necessidade de intensificar os esforços coordenados e mobilizar e revigorar os compromissos globais, regionais, nacionais e comunitários para acabar com a mortalidade materna evitável.
O óbito materno está diretamente relacionado com as condições de vida da população, com disparidade importante entre as diversas regiões socioeconômicas. Embora seja o melhor indicador de saúde da população feminina, seus números são apresentados de forma irreal, pela dificuldade na identificação dos casos nos registros de óbito.
A falta de pré-natal é um dos principais fatores para a mortalidade materna, pois o acompanhamento médico adequado da gestação permite a identificação precoce de riscos e a prevenção de complicações que podem levar à morte da gestante.
Além disso, esse acompanhamento possibilita ações para ampliar o conhecimento da gestante sobre sua saúde e evolução da gravidez. Também colabora para o melhor planejamento profissional, quanto aos cuidados específicos em gestações de risco.
Outro aspecto importante para a redução da morte materna no Brasil está vinculado à necessidade urgente de as escolas médicas e de enfermagem reverem seus conteúdos de obstetrícia. Uma vez que existe uma lacuna na formação obstétrica, principalmente a básica, onde procedimentos essenciais não estão sendo ensinados e os aspectos mais simples da obstetrícia muitas vezes não são diagnosticados.
Falta também um sistema de referência e contrarreferência, que vincule o pré-natal ao parto e regule a disponibilidade de leitos nas maternidades, o que evitaria peregrinações da mulher em trabalho de parto, em busca por assistência adequada.
A mortalidade materna continua sendo uma epidemia que atinge os países em desenvolvimento e, em especial, as mulheres de classe econômica menos favorecida. Para reduzir essas mortes, devem ser propostas medidas de prevenção, planejamento familiar abrangente, que impeça a ocorrência de gravidez indesejada, assistência pré-natal adequada, equipe qualificada para atendimento nas emergências obstétricas e vigilância no período puerperal.
Razão de mortalidade materna segue elevada
A razão de mortalidade materna é um dos mais importantes indicadores globais de saúde. No Brasil, em 2021, ela foi de 107,53 óbitos por 100 mil nascidos vivos, conforme o Ministério da Saúde. Essa taxa representa um aumento de 94,4% em relação a 2019, que tinha uma razão de 55,31 óbitos por 100 mil nascidos vivos.
A meta assumida pelo país junto às Nações Unidades é reduzir o índice para 30 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030. A taxa em países desenvolvidos oscila em torno de 10 mortes por 100 mil nascidos vivos.
O que precisa ser feito
Medidas de prevenção, associadas a diagnóstico e tratamento precoces e adequados são fatores benéficos na redução desses óbitos maternos. Para implementar esta estratégia é necessário o comprometimento político, social e econômico com a saúde, para promover as reformas necessárias na assistência ao ciclo gravídico-puerperal.
Antes de tudo, é preciso encarar cada morte materna como uma tragédia, como uma negligência da sociedade em evitar essa morte, por não colocar a atenção à saúde das mulheres como prioridade. A maioria das mortes que ocorre no Brasil é de causa direta, ou seja, por causas obstétricas (hipertensão, hemorragia, infecção e aborto), que são largamente evitáveis.
Enquanto algumas dependem de mudanças legislativas com debate na sociedade, como o caso do aborto, outras dependem de maior acesso e atenção qualificada ao pré-natal e parto, como a hipertensão. Importante que no pré-natal haja identificação de mulheres de risco, com encaminhamento para unidades secundárias ou terciárias.
Com apenas cinco anos restantes para alcançar as metas da ONU, agora é a hora de intensificar os esforços coordenados e agir de maneira efetiva para reduzir drasticamente as mortes maternas, eliminando as situações consideradas evitáveis.