Kleber Carrilho Publicado em 23/11/2024, às 09h51
Nunca foi surpresa que Bolsonaro não ficou contente com o resultado da eleição de 2022. Mais do que isso, nunca foi surpresa também que ele não estava muito disposto a reconhecer que tinha perdido. E, por fim, nunca foi surpresa que o ex-presidente consultou amigos e subordinados sobre a possibilidade de permanecer no cargo por meio de um golpe de Estado.
O que, na minha percepção, é estranho é o motivo pelo qual uma pessoa que claramente não gostava de estar no lugar em que estava queria tanto ficar. Porque, ao contrário de Fernando Henrique Cardoso e Lula, que claramente adoravam (Lula ainda adora, mas não tanto quanto antes) estar na cadeira mais importante do país, Bolsonaro nunca demonstrou conforto público ao representar o papel, assim como Dilma e, por que não lembrar, Itamar Franco.
Mas é aí que entram os aspectos incontroláveis: a família e os amigos. Fica claro que os filhos, a esposa e diversos personagens próximos a Bolsonaro adoravam estar perto do poder, por tudo o que ele podia proporcionar. E, por essa certeza de que poderiam fazer o que quisessem, sem interferência do titular do cargo, é que tanta coisa aconteceu de forma descontrolada.
Sabendo como Brasília funciona e muitas das instituições sediadas por lá, se houvesse mesmo vocação pelo poder por parte do ex-presidente, ele teria encontrado uma forma de permanecer. Mas, entre idas e vindas, sem saber se queria ou não, influenciado por gente que fazia questão de que ele continuasse para se beneficiar mais, e outra corrente que preferia fazer tudo dentro das regras, o ex-capitão não soube dar as ordens de forma clara.
Incapaz de liderar qualquer coisa, ele achou que poderia terceirizar o golpe. Sem assumir responsabilidade direta sobre a trama, acreditou que seria apenas o nome a ser lembrado quando tudo estivesse pronto – com a chapa vencedora morta e parte do Judiciário também. O que eu duvido, especialmente ao ver essa linha de comando liderada por Braga Netto. Parece claro que o golpe seria dado em nome de Bolsonaro, mas dificilmente o poder ficaria com ele.
Sem comando, cada um dos frequentadores do Palácio do Planalto com alguma capacidade de organização achou que poderia liderar seu golpe particular. Tentaram até fazer as coisas se conectarem, mas não conseguiram, porque todos queriam os louros de liderar o processo.
Assim, meio deprimido, meio esperançoso, Bolsonaro viu os dois meses entre a eleição e a posse de Lula passarem, sem ter certeza de que um golpe aconteceria. Partiu para a Flórida, esperou mais um pouco, negociou de lá e preferiu (ou preferiram por ele) organizar a oposição em terras brasileiras, sempre sem muita intenção de fazer política, apenas curtindo o oba-oba de eventos com fãs.
Se você perguntar para um deputado bolsonarista hoje o que Bolsonaro quer, dificilmente terá uma resposta clara. Talvez algumas obviedades, como pátria, família, liberdade, mas nada que se aproxime de um planejamento capaz de organizar pessoas. Ao contrário de Trump, que fez política nos quatro anos fora do poder, Bolsonaro não tem capacidade para fazer o que nunca soube.
Se ele tem culpa no cartório, tudo indica que sim, e eu também acredito. Mas também está claro que a democracia foi salva (por enquanto) pela sua incapacidade de planejar. O problema é que nem todos os que não dão valor à democracia são tão incompetentes assim. E eles estão por aí, trabalhando.