Kleber Carrilho Publicado em 09/11/2024, às 08h27
A vitória de Trump na última terça-feira criou um alvoroço nas redes sociais dos apoiadores de Bolsonaro, que já celebram uma possível volta ao Palácio do Planalto em 2026. E, embora realmente haja uma tendência de influência nas eleições brasileiras daqui a dois anos, as coisas não são tão simples assim. Afinal, Bolsonaro ainda está inelegível e, mesmo que consiga reverter essa condição e ser candidato, ele vai precisar fazer algo que ainda não demonstrou ser capaz: unir a direita em torno de seu projeto em uma campanha.
Se outro projeto à direita ganhar força, quem garante que esse não será o caminho do apoio de Trump (e de Elon Musk a tiracolo)? Temos, por exemplo, o caso de Pablo Marçal, que, a partir de São Paulo, conseguiu desestabilizar o bolsonarismo. Ou até Ronaldo Caiado, que traz o que há de mais tradicional na direita brasileira, com uma forte capacidade de representar o agronegócio.
São muitas possibilidades, mas a mais provável é a consolidação de Lula em alianças com a centro-direita e até mesmo com setores conservadores, como o Republicanos. Se Lula conseguir dar o recado a Tarcísio de Freitas de que não vai confrontá-lo em São Paulo, facilitando a reeleição em primeiro turno, é muito provável que o ex-pupilo de Bolsonaro não faça movimentos bruscos em direção a uma candidatura presidencial pela direita.
Ao mesmo tempo, pela aliança mútua com o PSD, Kassab pode atuar como elo entre os projetos de Lula e Tarcísio, adiando uma eventual candidatura do governador paulista para a Presidência para 2030, após um segundo mandato do petista. Afinal, Tarcísio é jovem e ainda precisa construir uma base sólida para se tornar um candidato viável em todo o país.
Se Lula e Tarcísio apoiarem uma candidatura de Kassab ao Senado, por exemplo, esse caminho pode se tornar mais fácil. Para isso, Lula poderia mudar o vice, ou Alckmin poderia migrar para o PSD, além de trazer o MDB para a aliança formal.
Com essa configuração, Lula daria o tiro de misericórdia no PT, que deixaria de ser um partido de governo para se tornar apenas o número de Lula, com pouca chance de sobrevivência após sua aposentadoria.
No entanto, tudo isso pode ser diferente se a esquerda, capitaneada pelo PT, se reorganizar, retomar o contato direto com a população e lançar novas lideranças. O que eu duvido, já que não conseguiu fazer isso até agora.
Quanto à influência de Trump, ela pode nem ser tão direta. Lula já deixou claro que não vai evitar conversas com ele, inclusive enviando um recado diplomático para parabenizá-lo. E, sem tensões no lado sul do globo, Trump vai estar, como sempre esteve, focado no mercado interno, sem se preocupar em definir um nome no Brasil, desde que seus interesses sejam respeitados. E isso Lula sabe fazer melhor do que Bolsonaro.