Fabiana Sena Publicado em 23/04/2025, às 08h00
Não se pode negar que vivemos, no Brasil e no mundo, um período de frenético avanço tecnológico, mas de discutível progresso moral.
A polarização política, marcada pela velha e rançosa dicotomia “direita e esquerda”, que se revela como um retrovisor da famigerada Guerra Fria, vem promovendo debates apaixonados e fartos de verdades absolutas. No entanto, as contemporâneas disputas ideológicas, do mesmo modo que os conflitos norteadores de um passado nem tão distante, se mostram desprovidas de senso crítico, empatia e respeito ao próximo.
Neste cenário obtuso, surge o primeiro Papa latino-americano, jesuíta, que escolheu ser chamado por Francisco, em referência à ordem franciscana, fundada por São Francisco de Assis.
A escolha do nome Francisco não foi apenas uma escolha semântica ou de simples homenagem — foi uma forma de mostrar ao mundo um modo de vida muitas vezes esquecido.
Francisco apregoou, por meio da abstenção de tradicionais regalias do clero, seu desejo de viver uma vida simples, sem luxos, de modo a se aproximar ainda mais daqueles que têm muito pouco ou quase nada.
Mas a pobreza material não foi o único alvo do Padre dos Padres. Ele também se preocupou com a exclusão espiritual, motivo pelo qual enfrentou o lado conservador da Igreja Católica e da opinião pública e, muitas vezes sob protestos e críticas, abençoou casais do mesmo sexo, transexuais, divorciados, membros de outras religiões e uma série de pessoas que, em razão de seu modo de pensar ou viver, acabam por ser discriminadas pela sociedade, pelos Estados e pelas próprias religiões.
O Papa que não se preocupou em agradar gregos ou troianos também buscou pela justiça na própria casa, fazendo gestões no sentido de promover a lisura e transparência nas finanças do Vaticano, dando mais voz às mulheres, pediu perdão às vítimas de violências sexuais praticadas por membros da Igreja, ao mesmo tempo que defendeu a punição para os culpados.
No campo da política, Francisco I nunca se omitiu: sempre vociferou contra as guerras, contra a usurpação de países menores por superpotências, pela defesa do meio ambiente, pela união entre os povos, pelos direitos humanos e, principalmente, por uma sociedade mais humana, igualitária e justa.
Com seu exemplo de humildade e sua crença em um mundo melhor, o Papa procurou por líderes religiosos de diversas religiões, a fim de promover a aproximação e o diálogo entre as crenças e, por decorrência, impedir ou extirpar desavenças oriundas de intolerância religiosa.
O Papa Francisco, que morreu um dia após a Páscoa — data que rememora a ressurreição de Jesus — pode ser considerado um autêntico Papa ecumênico, posto que nos seus doze anos de papado tentou reviver a todo instante as lições de acolhimento e caridade ensinadas pelo Cristo, muitas vezes esquecidas ou deturpadas ao longo desses dois milênios.
O Papa dos excluídos se liberta deste plano espiritual, mas, assim como outros Franciscos, como São Francisco de Assis e Francisco Cândido Xavier, deixa seu legado de amor incondicional e de incansável busca para congregar pessoas de diferentes credos ou ideologias.