Sobretaxa de 50% reduziu em 99% as compras dos EUA após meses de demanda recorde.
Gabriela Nogueira Publicado em 06/12/2025, às 08h43
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) projeta que o Brasil encerrará 2025 com um avanço histórico nas exportações de ovos, estimado em 116,6%. O crescimento expressivo é resultado de um início de ano aquecido, impulsionado pela demanda internacional e por um cenário atípico nos Estados Unidos, principal destino do produto brasileiro durante a crise.
No Espírito Santo, um dos estados mais afetados pela volatilidade dos preços, o consumidor sentiu diretamente os reflexos do mercado global. A redução de tarifas para algumas commodities brasileiras não se aplicou ao setor de ovos, que enfrenta obstáculos desde a criação de uma sobretaxa de 50% pelo ex-presidente Donald Trump, em vigor desde agosto.
Antes da cobrança adicional, o Brasil viu suas vendas dispararem para os EUA. A explosão da demanda foi consequência de um surto de gripe aviária que atingiu fortemente a avicultura norte-americana, derrubando a oferta interna e provocando alta recorde nos preços. Em alguns supermercados, a dúzia chegou a custar até R$ 60.
As regras para importação também mudaram. Antes autorizados apenas para compor rações, os ovos brasileiros passaram a entrar nos EUA como ingrediente de alimentos processados, como massas prontas e sorvetes. A venda direta ao consumidor permanece proibida.
Os números da ABPA mostram a dimensão do movimento: em janeiro, os EUA importaram 220 toneladas de ovos do Brasil. Em junho, o volume saltou para mais de 5 mil toneladas, mantendo forte ritmo em julho. Com a nova tarifa, as vendas despencaram: em outubro, caíram para apenas 41 toneladas.
Apesar da queda recente, o acumulado entre janeiro e outubro mostra que as exportações para os EUA cresceram 1.037,52% em relação ao mesmo período do ano anterior. A crise por lá, que atingiu o auge em março — quando a dúzia chegou a US$ 6,22 — começa a se dissipar, e os preços já recuaram para US$ 3,48.
Com o cenário favorável, o Brasil pode alcançar um marco inédito: pela primeira vez, as exportações devem ultrapassar 1% da produção total do país. A maior parte ainda fica no mercado interno, mas outros destinos vêm ganhando força.
O Japão, por exemplo, ampliou suas compras em 230% no período analisado. O Chile permanece entre os principais clientes, ainda que com queda de 41% nas importações.
Para Ricardo Santin, presidente da ABPA, o Brasil está consolidando uma nova vocação. A produção deve alcançar 62,25 bilhões de ovos neste ano e pode chegar a 66 bilhões em 2026, impulsionando também o consumo interno, estimado em 287 unidades por habitante.
A crise norte-americana, que deu origem ao salto das exportações brasileiras, tem raízes profundas. Desde 2022, surtos repetidos de gripe aviária levaram ao abate de milhões de aves. Apenas desde setembro, oito milhões foram sacrificadas. A escassez levou à limitação de compras em supermercados e até a casos de roubo de cargas, como um episódio que envolveu 100 mil ovos na Pensilvânia.
Nos Estados Unidos, onde o consumo médio ultrapassa 284 ovos por habitante ao ano — cerca de 250 milhões por dia — qualquer crise sanitária causa impactos imediatos na oferta e nos preços. Para o Brasil, o momento representa tanto oportunidade quanto alerta para a volatilidade de mercados dependentes de fatores externos.