Alimentos

Do prato à ameaça de esquecimento: consumo de feijão despenca

Com consumo em baixa histórica, Embrapa alerta para necessidade de reinventar o produto no mercado

A diminuição do consumo de feijão no Brasil reflete mudanças culturais e econômicas, especialmente entre classes média e alta - Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Gabriela Nogueira Publicado em 16/09/2025, às 17h54

A indústria do feijão enfrenta um momento desafiador em sua trajetória, pois busca se adaptar a um cenário onde o tradicional arroz com feijão, um ícone da culinária brasileira, está se tornando cada vez mais raro na mesa dos brasileiros, especialmente entre as classes média e alta. Pesquisas realizadas pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) revelam que essas classes sociais têm optado por refeições fora de casa e produtos mais caros, abandonando essa combinação clássica.

Atualmente, o consumo anual per capita de feijão é de apenas 12,8 kg, o terceiro menor registrado desde 1961. Esse índice alcançou seu ápice em 1967, com 26,57 kg, mas desde então tem apresentado uma queda contínua, especialmente a partir da década de 1990. Em 1991, o consumo foi de 12,68 kg e, após uma breve recuperação, voltou a cair a níveis alarmantes, atingindo a mínima histórica de 12,58 kg em 2016. Os dados são estimativas da Embrapa com base nas informações da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e do IBGE.

Os motivos por trás dessa diminuição acentuada no consumo foram analisados pelo pesquisador sênior da Embrapa, Alcido Wander. Segundo ele, uma transformação cultural está em andamento no Brasil, impulsionada pela crescente popularidade dos alimentos ultraprocessados, que atraem principalmente os jovens devido à praticidade e ao custo acessível.

Além disso, Wander observa uma redução significativa no hábito de cozinhar entre a população brasileira. Essa mudança se reflete até nas novas construções residenciais, onde os apartamentos apresentam cozinhas menores. "Quando as pessoas cozinham, optam por alimentos que demandam menos tempo de preparo; assim, o feijão se torna uma das principais vítimas dessa nova realidade", explica.

Marcelo Eduardo Lüders, presidente do Ibrafe (Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses), complementa que parte da queda no consumo pode ser atribuída à falta de conhecimento sobre o modo moderno de preparo do feijão. "Muitos não sabem que os feijões hoje em dia não requerem longos períodos de armazenamento e podem ser cozidos em menos de dez minutos na pressão", afirma Lüders.

A diminuição do consumo é mais acentuada entre as classes abastadas. Wander destaca que um estudo realizado há 15 anos pela Embrapa revelou que as classes sociais mais baixas ainda mantêm o hábito de cozinhar regularmente e consideram a alimentação fora de casa financeiramente inviável. Por outro lado, as classes média e alta têm substituído o feijão por opções alimentares mais caras e sofisticadas.

Outro fator que contribui para essa tendência é a redução no número de empregadas domésticas mesmo entre as famílias mais ricas. "As famílias estão diminuindo em tamanho e cozinhar se tornou um evento social", comenta Wander.

No segmento das classes menos favorecidas, um elemento que tem afetado o consumo é o aumento dos preços do quilo do feijão, que ultrapassa a média de elevação dos preços dos demais produtos alimentícios.

Diante desse panorama desafiador, a indústria do feijão começa a redirecionar suas estratégias para atender ao mercado externo; atualmente, cerca de 10% da produção nacional é destinada à exportação. Historicamente, essa produção atendia majoritariamente ao mercado interno.

Wander ressalta que a cadeia produtiva está ciente das dificuldades enfrentadas e mobiliza esforços para conscientizar os consumidores sobre os benefícios nutricionais do feijão na esperança de revitalizar seu consumo no Brasil. "No entanto, percebo que existe um potencial inexplorado nessa indústria", acrescenta.

De acordo com o pesquisador, há uma carência na oferta de diferentes formatos de apresentação do feijão voltados para os consumidores mais exigentes. Ele menciona o movimento crescente em direção à substituição das proteínas animais por opções vegetais ricas em proteínas mas com características sensoriais similares às carnes tradicionais.

Embora a soja esteja dominando esse nicho no Brasil atualmente, Wander defende que o feijão possui características nutritivas superiores e poderia ser explorado mais intensamente como alternativa saudável e sustentável.

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