Eu sou uma sobrevivente pela educação. Com todo o preconceito e com todas as coisas, eu venci", afirmou a paranaense Diva Guimarães, que emocionou milhares de

Redação Publicado em 01/08/2017, às 00h00 - Atualizado às 16h12
Eu sou uma sobrevivente pela educação. Com todo o preconceito e com todas as coisas, eu venci”, afirmou a paranaense Diva Guimarães, que emocionou milhares de brasileiros ao discursar sobre preconceito durante a 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no dia 29 de julho. “Um negro pra estudar e pobre passa por muitas humilhações”, disse a professora, que é formada em Educação Física.
No discurso, a aposentada, que tem 77 anos, levou o ator Lázaro Ramos, um dos palestrantes do evento, às lágrimas. O vídeo viralizou na internet e teve milhões de visualizações (veja abaixo).
Nascida em Serra Morena, na região norte do Paraná, e neta de escravos, Diva tomou coragem ao pegar o microfone e relatou uma vida de dificuldades impostas pelo racismo e pela intolerância.
“Se o branco é 100%, o negro tem que ser 1.000%. Tem que estar muito acima para se igualar. A saída é essa: ler, estudar muito para conseguir driblar a situação”, comentou a professora.
Ela declarou ainda que, quando era mais nova, sofreu preconceito de forma explícita e que, atualmente, continua sofrendo o mesmo absurdo, mas de forma velada.
“Você entra em uma loja e escuta ‘posso lhe servir?’ mas isso não é para servir você, é para ficar andando atrás de você para ver se vai roubar”, afirmou.
Durante a sua fala no evento, a aposentada também citou problemas na educação pública brasileira e deu uma lição de vida ao lembrar dos ensinamentos da falecida mãe.
Aliás, a coragem para botar para fora todo aquele desabafo, segundo Diva, em público, foi graças à ajuda espiritual da mãe. “Eu acho que ela estava do meu lado e meu levantou. Porque ela sempre nos levantou”.
“A gente era pobre e a minha mãe, pra que eu pudesse estudar, me mandou para um colégio, que tinha uma tradição no Paraná, à época, das missões, onde as freiras passavam e recolhiam as crianças e as pessoas com mais idade em troca de estudo”, lembrou Diva.
Emocionada, ela contou que foi alfabetizada nesse colégio, mas que pagou um preço muito alto.
“Muita surra, apanhei demais e sofri muita humilhação por ser negra”, disse.
Ela lembrou ainda que havia outros negros na instituição, mas que ela apanhava mais porque era rebelde.
“Eu fui me tornando terrível e, às vezes, apanhava até sem saber. Isso marcou a minha vida profundamente”, desabafou a aposentada.
Durante o discurso na Flip, ela disse que essa lembrança veio à tona, mas que ela não imaginava o tamanho da repercussão, muito menos que o ator Lázaro Ramos fosse ficar tão emocionado. “Eu compreendo muito bem a lágrima do Lázaro porque ele estava na minha pele. Nós estávamos, os negros, todos na mesma pele ali naquele momento. Então, ele sentiu tudo aquilo que eu senti, e a lágrima dele foi muito verdadeira”, argumentou a professora.
Filha de parteira e de empregado de estrada de ferro, dona Diva optou por não casar e nem ter filhos. Uma opção para um mundo que ela considera muito intolerante. “Eu fui percebendo as coisas, amadureci muito cedo. Eu não teria filhos para passar pelas mesmas coisas que eu passei. Nós, adultos, já temos determinados vícios, determinados ranços. É muito difícil você modificar um adulto”. Para ela, a chance de mudança está na juventude.
“Sempre haverá exceção, mas haverá a maioria que vai vencer essa maldição, que é o que foi para nós”
Ao final do evento na Festa Literária Internacional de Paraty, a professora ganhou de presente o livro de Lázaro Ramos autografado. Os dois se abraçaram e, mais uma vez, vieram às lágrimas de tanta emoção. “Eu quase desmaiei”, brincou Diva.
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